quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um Herói da Grande Guerra revisitado: Armando Ferraz


Há um episódio histórico, e quase mítico, sobre a participação de Portugal na Grande Guerra que é conhecido por quase todos: o épico confronto entre um Arrastão de pesca português convertido em Caça-Minas, e rebaptizado de Augusto de Castilho e um grande e moderno Submarino Cruzador alemão – o U-139, de forma a proteger um Navio da Marinha Mercante portuguesa, o São Miguel.


São muitas as referências bibliográficas e Sites onde este episódio é relatado e como tal não iremos aprofundá-lo. Em todos se realçam a desproporção de forças em confronto (quer em tonelagem quer em poder bélico: número de peças e seus calibres); a forma heróica como, abnegadamente, o heróico capitão do caça-minas, Comandante Carvalho Araújo, se bateu até à morte e ao afundamento do seu navio; a surpresa, e respectiva homenagem, da tripulação do submarino alemão perante tal reacção portuguesa; a curiosa situação de tudo ter sido fotografado e filmado por um Oficial alemão; ou ainda, o esforço suplementar a que os sobreviventes foram obrigados, naufragando em pleno mar oceânico durante uma semana, quase sem mantimentos e sem instrumentos de navegação, numa pequena balsa…

http://museu.marinha.pt/Museu/Site/PT/Extra/Popups/Oca%C3%A7aminasAugustoCastilho.htm

http://www.pontoblogue.com/2008/10/heroicidade-no-mar-o-caa-minas-augusto.html

http://naval.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_09.html


Quer no Museu da Marinha quer no Museu Militar de Lisboa, existem óleos de grandes proporções, que ilustram este episódio, o que é bem demonstrativo da importância que o mesmo teve…

O que nos leva a colocar este post é o facto de, recentemente, nos termos deslocado ao Museu de Marinha e diligenciado para se alterar ligeiramente o espólio falerístico exposto referente ao Imediato do caça-minas, o Guarda-marinha Manuel Armando Ferraz.
Está patente ao público, numa das salas deste Museu, um conjunto com as suas mais emblemáticas condecorações, todas concedidas como recompensa dos seus vários actos heróicos relacionados com o citado episódio, e que apresentamos uma fotografia.



Como podemos verificar, trata-se do Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, e no meio, quatro condecorações portuguesas: o grau de Oficial da referida Ordem; a Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe; a Medalha dos promovidos por distinção; e ainda a Medalha de ouro de Coragem, Abnegação e Humanidade, do Instituto de Socorros a Náufragos.
Para memória futura, aqui ficam os respectivos diplomas legais que as concederam:

Decreto de 29 de Novembro de 1918 (D.G. 281, 2ª Série, 1918 e rectificação no D.G. 205, 2ª Série, 1924)
Tendo em muita consideração a brilhante conduta da guarnição do Caça-Minas Augusto de Castilho, do comando do 1º Tenente da Armada José Botelho de Carvalho Araújo, no combate travado no dia 14 de Outubro último, a 200 milhas dos Açores, com um grande submarino alemão armado de duas peças de 15cm, quando comboiava o Paquete S. Miguel, em viagem do Funchal para Ponta Delgada, salvando pelo seu heróico cometimento este navio de ser torpedeado e afundado com numerosos passageiros, sendo também dignos do maior elogio alguns actos de inexcedível bravura praticados não só durante o combate como ainda na perigosa travessia, por espaço de seis dias, feita pelas últimas praças que tiveram, numa pequena embarcação arrombada e desprovida de víveres e instrumentos náuticos, de abandonar, com o Guarda-Marinha Imediato, Manuel Armando Ferraz, o referido Caça-Minas, depois do intensivo fogo suportado valentemente e de esgotadas por completo as próprias munições da sua inferior artilharia: hei por bem, sob proposta do Secretário de Estado da Marinha, decretar que sejam galardoados tão relevantes feitos, promovendo por distinção e concedendo a Cruz de Guerra àqueles que bem mereceram da Pátria e como em seguida vai designado:

Guarda-Marinha Manuel Armando Ferraz, com vários ferimentos em combate – promoção a 2º Tenente, sem prejuízo de antiguidade, Cruz de Guerra de 1ª classe e 3º grau da Ordem da Torre e Espada, pela bravura e energia com que se conduziu no combate que no dia 14 de Outubro teve lugar entre o Caça-Minas Augusto de Castilho, do qual era Imediato, e o submarino alemão que pretendia afundar o paquete S. Miguel, que aquele comboiava, não só auxiliando o seu comando na direcção do combate como depois da morte deste, tendo sido obrigado a abandonar o navio por falta de munições, revelou inexcedíveis qualidades de comando, vastos conhecimentos e competência, conseguindo conduzir a porto de salvamento, apesar de ferido e durante uma viagem de cerca de 200 milhas, uma pequena embarcação arrombada, em que se alojavam 12 sobreviventes, quase todos feridos, sem instrumentos náuticos, sem velas, quase sem mantimentos e água, animando com o seu exemplo de energia e trabalho constante durante seis dias e seis noites, sem nunca esmorecer, a tripulação daquele frágil bote.




Decreto de 28 de Maio de 1919 (D.G. 127, 2ª Série, 1919)
Tendo em vista o que dispõe o Regulamento do Instituto de Socorros a Náufragos, aprovado pelo Decreto nº 1.029, de 6 de Novembro de 1914, e em harmonia com a consulta da Comissão Executiva Central do mesmo Instituto: hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, conceder a Medalha de ouro de Coragem, Abnegação e Humanidade, ao Guarda-Marinha, Manuel Armando Ferraz, pelos relevantíssimos serviços que prestou conseguindo pôr a porto de salvamento uma pequena embarcação do Caça-Minas Augusto de Castilho, em que se alojaram doze sobreviventes, quase todos feridos do combate travado entre o referido Caça-Minas e um submarino alemão, em 14 de Outubro de 1918, tendo percorrido 200 milhas durante seis dias sem instrumentos náuticos e quase sem mantimentos.


Mas existe um pequeno detalhe falerístico referente a este Oficial da Armada portuguesa (que acaba a sua carreira como Contra-almirante) que nunca é referido. Este nosso herói naval, foi igualmente reconhecido pelo governo de Sua Majestade Britânica, que lhe concedeu a sua distintíssima Distinguished Service Cross, e que foi caso único em Portugal.
Esta condecoração britânica que premeia o valor e a coragem (gallantry) no mar dos Oficiais subalternos e Capitães, foi criada em 1901 com outro nome - Conspicuous Service Cross - e em 1918 passou a denominar-se com a actual designação, sendo que a sua concessão autoriza o acrescento da sigla DSC no fim do nome do agraciado.

A fotografia apresentada é uma DSC, com o centro do anverso idêntico à do Armando Ferraz, já que este vai variando de acordo com o monarca reinante, e no caso, trata-se da cifra do rei (e Imperador da Índia) Jorge V.
A autorização oficial para a receber e usar foi dada pelo Despacho ministerial de 27 de Abril de 1924, mas somente publicada em Ordem à Armada nº 2, de 1926.

Ora, é com agrado que podemos reportar que a Direcção daquele Museu anuiu à nossa sugestão, e a DSC britânica deste nosso herói – única condecoração britânica deste tipo concedida a um português – irá sair da caixa forte onde estava depositada e ficar patente ao público, sendo uma mais-valia, não só para o visitante português mais atento, mas especialmente para o visitante britânico, muito mais atento a estes detalhes e maior conhecedor da sua herança falerística…

Para rematarmos esta pequena história, apresentamos uma fotografia de coleccção particular, onde podemos ver o “nosso homem”, envergando o seu Grande Uniforme de Oficial da Armada e ostentando as suas condecorações, nomeadamente a Distinguished Service Cross.

sábado, 1 de agosto de 2009

Exposição no Hermitage (2004-05)

For Faith and Loyalty. The History of the Capitulum of the Russian Imperial and Tsarist Orders

9 December 2004 - 3 April 2005

O Museu do Hermitage organizou uma fabulosa Exposição sobre as Ordens Imperiais Russas que decorreu de Dezembro 2004 – Abril 2005.
A Exposição incluía 200 peças, desde manuscritos e estatutos impressos das várias Ordens, uniformes e trajes de membros das ordens, selos, diplomas e retratos.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dom Domingos Lam Ka Tseung, Bispo Emérito de Macau RIP


Dom Domingos Lam Ka Tseung GOC, GCIDH (1928-2009)


Dom Domingos Lam Ka Tseung, Bispo Emérito de Macau, faleceu no dia 27 de Julho, aos 81 anos de idade.

Nascido a 9 de Abril de 1928, em Hong Kong, foi para Macau em 1931 onde recebeu ordens sacras em Dezembro de 1953. Em 1987 foi ordenado bispo e nomeado bispo coadjutor de Macau. Em Outubro de 1988 sucedeu à testa da diocese de Macau ao Bispo Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, tendo resignado em Junho de 2003.
Foi o primeiro Bispo de etnia chinesa de Macau.
Dom Domingos Lam Ka Tseung foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1990), promovido a Grã-Cruz em 1996, pelo Presidente da República Dr. Mário Soares e, em 18 de Dezembro de 1999, o Presidente da República Dr. Jorge Sampaio impôs-lhe as insígnias de Grande-Oficial da Ordem de Cristo, em cerimónia que teve lugar em Macau (ver foto).


Lista dos Bispos da Diocese de Macau

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Professor Sydney Brenner Condecorado



Professor Sydney Brenner agraciado com a Grã-Cruz da ordem do Infante D. Henrique


O Professor Sydney Brenner, nascido em 1927, na África do Sul, recebeu o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 2002 e é o Presidente do Conselho Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência.


No decurso da sua visita ao IGC, no passado dia 21 de Maio, o Presidente da República impôs-lhe as insígnias de Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique com que o havia agraciado em reconhecimento “do seu importante contributo para a internacionalização da ciência portuguesa e do seu papel como uma das grandes personalidades científicas do nosso tempo”.


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Harry Patch - último Veterano do Exército Britânico Combatente da Grande Guerra, faleceu com 111 anos, 25.07.2009


Harry Patch dies at 111 @ Yahoo! Video





Morreu o úlltimo combatente que esteve nas trincheiras da I Guerra Mundial - TSF

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BBC - Somerset - Remembrance 90 - Harry Patch in Profile

Blogue «Sala de Guerra»

domingo, 19 de julho de 2009

BBC E-mail: Obituary: Henry Allingham



Henry Allingham (1897- 18 July 2009)

Veterano da I Guerra Mundial e fundador da RAF


*** Obituary: Henry Allingham **
The World War I veteran who survived to became Britain's oldest man.
< http://news.bbc.co.uk/go/em/fr/-/2/hi/uk_news/6958420.stm >




sábado, 11 de julho de 2009

Heróis esquecidos II

Capitão António Maria Teles Freire
[Campanha do Barué, Moçambique, 1917]
– Medalha de prata de Valor Militar, letra “C”
Condecorado com a Medalha Militar de prata da classe de Valor Militar, letra “C”, o Capitão de Infantaria, em serviço na Guarda Nacional Republicana, António Maria Teles Freire, porque sendo subalterno da 1ª Companhia Indígena de Infantaria da Companhia de Moçambique que, fazendo parte da Coluna do Gorongoza, operou em 1917 na última revolta do Barué, se distinguiu pela energia, serenidade, sangue frio e coragem com que soube comandar o seu pelotão, sempre na guarda avançada da coluna em todos os combates e recontros, nomeadamente nos combates do Rio Mutacuduri, em especial na travessia do vau de Xideu, em que, à força de estímulo e com o próprio exemplo, encorajou a sua fracção, com água pelo peito e sob fogo mortífero dos revoltosos até à difícil escalada da margem, que primeiro alcançou, organizando com rapidez o ataque à posição ocupada pelos revoltosos e secundando com a sua força e debandada das trincheiras. Este Oficial dirigiu com acerto alguns raids quando Comandante do Posto de Inhandar, dos quais se colheram óptimos resultados.
- Decreto de 12 de Fevereiro de 1921 (Ordem do Exército nº 3 / II Série / 1921)






Soldado Jacinto Mundau

[Incidente das Portas do Cerco, Macau, 1952]
– Medalha de cobre de Valor Militar
Condecorado com a Medalha de cobre de Valor Militar, a título póstumo, nos termos do § 2° do artigo 8° do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por satisfazer às condições expressas no § 1° do artigo 7° do mesmo regulamento, o Soldado Indí­gena de Moçambique, Jacinto Mundau, nº 50/A/335, da 2ª Companhia do Batalhão de Caçadores nº 1, da guarnição militar da Província de Macau, porque, quando se procedia ao encerramento da fronteira na tarde de 25 de Julho do ano findo, foi atingido grave­mente com tiros, disparados por militares chineses, que lhe causaram a morte, quando, desarmado, lutava corpo a corpo, a fim de libertar e trazer para território na­cional um seu camarada, que, apanhado de surpresa, era arrastado para território chinês, demonstrando valentia, coragem e dedicação patriótica.
- Portaria de 6 de Maio de 1953 (Ordem do Exército nº 9 / II Série / 1953)



2º Subchefe da PSP, Manuel Miguéns Maria
[Guerra do Ultramar, Moçambique, 1972]
- Medalha de cobre de Serviços Distintos, com palma
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Defesa Nacional, louvar, por proposta do Comandante-chefe das Forças Armadas de Mo­çambique, o 2º Subchefe nº 362/1701, Manuel Miguéns Maria, porque vem desempenhando as fun­ções de Chefe da Secção de Informações do Desta­camento Policial do Songo com muita dedicação, espírito de sacrifício e forma altamente eficiente.
Ajudando a estruturar e organizar a rede infor­mativa, em termos de poder responder às inúmeras solicitações apresentadas por uma guerra subversiva, soube o Subchefe Miguéns, no cumprimento das di­rectivas do comando e com o entusiasmo que possui, adensar e dilatar essa estrutura informativa com uma eficiência digna dos maiores encómios.
Elemento leal e dedicado, de um dinamismo fora do vulgar, vem a desenvolver uma intensa actividade informativa, para a qual tem dedicado muitas horas do seu justo descanso e corrido sérios riscos.
Conseguiu, através dessa rede e usando subterfúgios e expediente imaginosos, notícias preciosas e impor­tantes, que, transmitidas às entidades competentes e por estas exploradas, têm vindo a contribuir para a detenção de muitos elementos ligados ao inimigo e para a destruição das estruturas político-militares em diversas áreas.
Pelas qualidades apontadas, considero que o Sub­chefe Miguéns vem desempenhando um importante serviço de carácter militar, por forma a merecer louvor individual a ser publicado na Ordem do Exér­cito, considerando extraordinários e importantes os serviços prestados.
- Portaria de 31 de Maio de 1973 (Diário de Governo nº 135 / II Série / 1973)








Furriel Piloto-Aviador Augusto Krug
[Viriatos, Guerra Civil de Espanha, 1938]
- Medalha de prata de Valor Militar, com palma
Furriel Piloto-Aviador Augusto Krug, porque, tendo-se oferecido para servir na Missão Militar Portuguesa de Observação cm Espanha, denotou sempre grande ardor combativo, coragem, decisão e espírito de sacri­fício, especialmente demonstrado no difícil e arris­cado serviço de acompanhamento, em que mereceu os mais rasgados elogios dos seus chefes e camaradas espanhóis, e ainda porque em 14 de Agosto de 1938, tripulando o avião nº 5 da “Cadena”, que colaborava no ataque à Serra de Pandols, tendo o seu avião sido atingido com bala explosiva no aileron esquerdo e com os comandos de direcção avariados, com grande risco, sangue-frio e habilidade, em vez de se lançar em pára-quedas, como em casos semelhantes era cor­rente na guerra, conduziu o aparelho ao primeiro terreno onde pôde aterrar, conseguindo assim salv­á-lo, procedimento este que deu origem a merecidos louvores de entidades espanholas e a um telegrama em que o General Comandante do Exército do Ar en­carregou o Chefe da Aviação de Cooperação de trans­mitir as suas felicitações a este piloto pela sua bri­lhante actuação.
- Portarias de 18 e 22 de Maio de 1940 (Ordem do Exército nº 11, II Série, 1940)

sábado, 6 de junho de 2009

65º Aniversário do Desembarque Aliado na Normandia



Salute the D-day Veterans – 6-06-2004



Honra e Glória aos bravos Soldados Aliados que cairam nas Praias da Normandia há 65 anos
lutando pela libertação da Europa da opressão Nazi.
Honra aos Povos que não esquecem e honram os seus mortos caídos em combate no cumprimento do dever e da honra.

Quatro Veteranos foram hoje condecorados pelo Presidente Sarkozy com o grau de Oficial da Ordem de Legião de Honra.

As cerimónias foram marcadas por um incidente diplomático devido a não ter sido dirigido um convite a S.M. a Rainha Isabel II do Reino Unido para estar presente na cerimónia, já que o Presidente francês considerava o evento como «primordialmente franco-americano»!

Assim vai e Europa...
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Brasil e a falerística portuguesa

Retrato de D. João VI, Jean-Baptiste Debret
1817 - óleo sobre tela, Museu de Belas Artes (R.J.)


Também na falerística há fortes laços históricos unindo o Portugal e o Brasil que remontam ao início do século XIX quando a Família Real partiu rumo ao Brasil instalando-se no Rio de Janeiro.
Logo em Maio de 1808, o Príncipe-Regente D. João para assinalar a chegada da Família Real ao Brasil, resolveu criar uma nova ordem de mérito - a Ordem da Torre e Espada, com a finalidade expressa de recompensar os serviços de alguns Oficiais da Real Marinha Britânica que escoltaram a Armada Real até ao Brasil e de premiar os súbditos portugueses que acompanharam a Família Real para o Novo Mundo.


Regulamentada em Novembro de 1808, as primeiras concessões tiveram lugar a 17 e a 20 de Dezembro contemplando diplomatas estrangeiros, oficias da marinha britânica, membros do Governo nomeado á chegada ao Rio de Janeiro, conselheiros de Estado, titulares de cargos palatinos e altas patentes militares. Com a retirada das tropas francesas de Portugal (1811-12) a Ordem foi utilizada para recompensar os Oficiais, britânicos e portugueses, que se tinham distinguido por bravura nas campanhas da Guerra Peninsular.

Num momento posterior e dado o envolvimento de tropas portuguesas nas campanhas de Montevideu (1816-1820) a ordem também foi concedida a militares que nelas combateram, alguns dos quais, aderiram após Setembro de 1822 à causa da independência do Brasil tendo atingido posições de relevo durante o Império.

Com o regresso de D. João VI a Portugal em 1821, a ordem serviu sobretudo para galardoar soberanos e príncipes estrangeiros aliados ou parentes do rei, militares envolvidos na Vila Francada e, na sequência da Abrilada diplomatas e súbditos estrangeiros – oficiais das marinhas de guerra inglesa e francesa de navios surtos no Tejo.

As mais antigas insígnias da Ordem da Torre e Espada, hoje raras, terão sido fabricadas na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, a par de outras fabricadas no estrangeiro a partir da segunda década de oitocentos, mormente, por ourives conceituados em Inglaterra sob encomenda de agraciados britânicos.
Após a morte de D. João VI em 1826, a ordem continuou a ser conferida por D. Miguel I, que entretanto havia sido aclamado rei absoluto em cortes, até á Convenção de Évora-Monte em 1834 que consagrou a derrota das forças realistas e motivou o exílio de D. Miguel.
D. Pedro após ter abdicado o trono imperial do Brasil em seu filho D. Pedro II, partiu para a Europa e assumindo a Regência em nome de sua filha D. Maria II decidiu encabeçar a luta pela restauração dos direitos de sua filha organizando um exército nos Açores que em 1832 desembarcou no Mindelo e ocupou o Porto.


Ainda nos Açores decidiu D. Pedro, duque de Bragança, reformar a Ordem da Torre e Espada fundada por seu pai dando-lhe novos estatutos, de acordo com os princípios da Carta Constitucional que em Maio de 1826 havia concedido à Nação portuguesa. Passou a chamar-se a Antiga Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, com 4 graus e assumindo a natureza de ordem de mérito ou honorífica, na esteira da Legião de Honra criada por Napoleão e mantida pelo rei Luís XVIII após a restauração em 1814-15.

Portanto, de 1832-1834, co-existiram em Portugal duas ordens da Torre e Espada, ambas tendo servido para recompensar feitos militares ou serviços praticados no decurso da Guerra Civil que devastou Portugal.

De realçar que o Imperador D. Pedro I, na sua qualidade de rei de Portugal, concedeu em 1 de Maio de 1826, na véspera de abdicar o trono de Portugal em sua filha, uma grã-cruz da ordem da Torre e Espada a Dom Marcos de Noronha e Brito, 8º conde dos Arcos, que havia sido o último vice-rei do Brasil, e após a chegada da Corte ao Brasil, Governador da Baía e mais tarde Ministro da Marinha e do Ultramar e Ministro dos Negócios do Reino e dos Estrangeiros. A sua enérgica atitude na repressão da revolução Pernambucana de 1817 valeu-lhe a hostilidade dos sectores progressistas brasileiros e, só agora à distância de dois séculos, a sua acção no governo do Brasil colonial começa a ser reavaliada com isenção.


Após a extinção das ordens em 1910 pelo Governo Provisório da República, a Ordem da Torre e Espada foi restabelecidaem 1917-1918 sendo hoje a mais alta condecoração da República.

Vários Presidentes da República do Brasil foram agraciados com a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a saber:


Professor Doutor Fernando Henrique CARDOSO, Grã-Cruz 2002 (possui igualmente a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1987) e os Grandes-Colares das Ordens da Liberdade (1996), de Santiago da Espada (1997) e do Infante D. Henrique (2000)
Fernando Collor de MELLO, Grã-Cruz 1992
Dr. Tancredo de Almeida NEVES, Grã-Cruz 1985
General Emilio Garrastazu MÉDICI, Grande Colar 1973
Marechal Arthur da COSTA e SILVA, Grã-Cruz 1967
Dr. Juscelino KUBITSCHEK de OLIVEIRA, Grã-Cruz 1956
Dr. João CAFÉ Filho, Grã-Cruz 1955
Getúlio VARGAS, Grã-Cruz 1933

O Presidente José SARNEY recebeu o Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada, 1986, e as Grã-Cruzes das Ordens de Cristo (1998) e, do Infante D. Henrique (2000).

O actual Presidente da República do Brasil Inácio Lula da Silva recebeu o Grande-Colar da Ordem da Liberdade em Outubro de 2003.




Com a subida de D. João VI ao trono do Reino Unido de Portugal e Brasil, em 1816, e a sua solene aclamação em 6 de Fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, decidiu o rei criar a Ordem Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, por decreto dessa data e com regulamento aprovado por alvará, dado no Rio de Janeiro, em 10 de Setembro de 1819.





As insígnias desta ordem foram desenhadas pelo pintor Jean Baptiste Debret que à época se encontrava no Brasil integrado na que ficou conhecida como a Missão Artística Francesa. Debret que permaneceu no Brasil até 1831 também foi o autor do desenho das insígnias da Ordem Imperial da Rosa, criada pelo Imperador D. Pedro I em 1829, para comemorar o seu 2º casamento com D. Amélia de Beauharnais, princesa de Leuchtenberg. A ordem continuou a ser concedida após o regresso de D. João VI a Portugal e durante a monarquia constitucional até 1910.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Notícias do mercado nacional

A revista L+arte no seu número 60 – Maio de 2009, publica na rubrica «Bolsa» um interessante artigo de Maria do Carmo Espírito Santo sobre Insígnias e condecorações nas principais leiloeiras, com ilustrações (pp. 74-75), no qual se tecem considerandos sobre as razões da escassa aparição de insígnias de ordens no mercado nacional de leilões e referindo o comportamento mais cauteloso dos compradores face ao aparecimento, há algum tempo, de exemplares falsos, bem como a reduzida dimensão do mercado nacional para peças que no estrangeiro atingem preços altos.

O artigo abrange 9 peças, desde um Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor Lealdade e Mérito, a Banda e Laço de Dama da Ordem de Santa Isabel, as insígnias de comendador da Ordem de Nª Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Placa de Comendador da Ordem Militar de Cristo (séc. XIX) e, de ordens estrangeiras como as insígnias de Grã-Cruz da Ordem de Orange e Nassau, dos Países-Baixos e de Grã-Cruz da Ordem de Leopoldo II, da Bélgica.
Com excepção das insígnias da Ordem de Santa Isabel que atingiram um preço acima dos € 10.000, a maioria das restantes quedou-se por valores aquém dos geralmente obtidos no mercado internacional.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

«O Último Távora» de José Norton

Apresentação do livro de José Norton, «O Último Távora», Publicações Dom Quixote, 2007

Blog do Autor - O Último Távora

Base Aérea Nº 1 condecorada


BASE AÉREA Nº 1 – SINTRA

O Presidente da República visitou ontem dia 19, a BA1, em Sintra presidindo a uma cerimónia no decurso da qual impôs as insígnias de Membro-Honorário da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito ao estandarte da Base Aérea Nº1, com que havia agraciado aquela prestigiada unidade da Força Aérea Portuguesa.
«Ao agraciar a Base Aérea Nº1 com a mais alta condecoração do Estado, o
Presidente da República traduz o público reconhecimento da Nação pelos
importantes serviços por ela prestados ao País, reiterando a sua confiança
naqueles que, nela servindo, continuam a trabalhar com esforço e dedicação para
o desígnio de umas Forças Armadas modernas e eficientes, estimulando-os a
enfrentar abnegadamente os desafios do futuro».




A Base Aérea Nº 1 – Sintra, está instalada na Granja do Marquês e remonta as suas origens a 1914 quando foi criada a Escola Militar de Aviação originalmente instalada em V. N. da Rainha e transferida em Fevereiro de 1920 para a Granja do Marquês. De 1928-1939 passou a designar-se por Escola Militar de Aeronáutica e desde essa data Base Aérea Nº 1.

A BA1 junta-se assim a um conjunto de unidades militares condecoradas após o 25 de Abril com o título de Membro-Honorário da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a última das quais foi o Centro de Instrução de Operações Especiais (Lamego) em Abril de 2000 e, em 1985, o Regimento de Comandos, o Corpo de Fuzileiros, o Corpo de Tropas Pára-Quedistas, a Escola Prática de Cavalaria e, a Guarda Fiscal.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Homenagem a Sacadura Cabral - II

Ainda na senda de fazermos ecoar no tempo algumas das muitas e merecidas homenagens com que Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram premiados após o seu épico voo, iremos aqui reproduzir dois desses diplomas legais.
Um destes decretos é referente à promoção por distinção destes dois Oficiais de Marinha aos respectivos postos imediatos enquanto o outro é destinado ao ilustre geógrafo e futuro almirante.

Lei nº 1.257, de 27 de Abril de 1922 (Diário de Governo nº 82, I Série, de 1922)
Em nome da Nação, o Congresso da República decreta e eu promulgo, a lei seguinte:
Artigo 1º - São promovidos por distinção ao posto imediato, a contar de 30 de Março do corrente ano, o Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho, e o Capitão-Tenente Artur de Sacadura Freire Cabral, ficando permanentemente supranumerários aos respectivos Quadros.
Artigo 2º - Fica revogada a legislação em contrário.
O Ministro da Marinha a faça imprimir, publicar e correr.



Lei nº 1.390, de 28 de Novembro de 1922 (Diário de Governo nº 246, I Série, de 1922)
Em nome da Nação, o Congresso da República decreta e eu promulgo, a lei seguinte:
Artigo 1º - São dispensadas ao Contra-almirante Carlos Viegas Gago Coutinho todas as provas e exames estabelecidos na legislação em vigor, necessários à obtenção do Diploma de Observador Aeronáutico.
Artigo 2º - Fica revogada a legislação em contrário.
O Ministro da Marinha a faça imprimir, publicar e correr.


Aproveitando a ocasião vamos dar a conhecer um episódio menos conhecido da vida de Sacadura Cabral, ocorrido quando jovem Oficial de Marinha em início de carreira e quando se encontrava a prestar serviço na Estação Naval de Moçambique.
Esta situação, ocorrida em 1902, é bem demonstrativa de alguns dos seus dotes de carácter, como seja o seu altruísmo. Pouco depois, e como recompensa à sua acção, foi condecorado com a Medalha de prata de prémio e distinção ao Mérito, Filantropia e Generosidade, vulgo Medalha Rainha D. Maria II.

Decreto 3 Outubro 1902 (Diário de Governo nº 227, de 1902)
- Artur de Sacadura Freire Cabral, Guarda-Marinha da Armada
Pelo acto de abnegação e coragem que praticou no dia 16 de Julho último, com risco da própria vida, atirando-se ao rio Maputo, no intuito de salvar o 1º Grumete Manuel da Luz Mattos, que ali caíra.
[O Diploma de concessão desta condecoração está patente ao público numa vitrina existente no Museu do Ar, em Alverca]


Recordamos que esta medalha monárquica foi a única condecoração que tendo no seu anverso a efígie de uma rainha – D. Maria II – continuou a ser permitida e a ser concedida pelo regime republicano, tendo havido somente a “actualização” das cores da sua fita de suspensão para as novas cores nacionais.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Fastes de Cour et cérémonies royales - Palácio de Versailles


Exposição "Fastes de Cour et cérémonies royales" - Palácio de Versailles

31 de Março - 28 de Junho 2009

retratando a história do Traje de Corte na Europa de 1650 - 1800 e a influência da França neste domínio. Um dos temas apresentados é o dos trajes com insígnias das ordens mais prestigidas da Europa - Espírito Santo, Tosão de Ouro e Jarreteira.

quarta-feira, 25 de março de 2009

As Invasões Francesas

No decurso das Invasões Francesas que devastaram o país travaram-se inúmeras acções e batalhas, nas quais se distinguiram numerosos Oficiais, portugueses e aliados, e que motivaram a posterior concessão da Ordem da Torre e Espada, da Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular e da Cruz de Condecoração das Campanhas da Guerra Peninsular, estas últimas criadas expressamente para o efeito.
O Bicentenário tem sido pretexto para múltiplos eventos culturais evocativos.
Pelo seu interesse transcrevemos aqui o documentário de Nunes Forte sobre as Invasões Francesas - Depoimentos do Prof. Veríssimo Serrão, Generais Themudo Barata e Sousa Lucena, Ten. Coronel Pena e Major Fernandes Henriques.








quinta-feira, 19 de março de 2009

1º Conde de Arnoso


General de Brigada Bernardo Pinheiro Correia de Melo
1º Conde de Arnoso

Nasceu na Casa do Proposto, em Guimarães, a 27 de Maio de 1855 e faleceu na Casa de Pindela (S. Tiago da Cruz, V. N. Famalicão), a 21 de Maio de 1911 e era filho secundogénito do 1º Visconde de Pindela - João Machado Pinheiro Corrêa de Melo e, de sua 2ª mulher D. Eulália Estelita de Freitas Rangel de Quadros. Era irmão de Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, 2º visconde de Pindela.
Baptizado com o nome de Bernardo em memória de seu terceiro avô materno, pai do 1º visconde de Azenha, aos 7 anos (1862) vai estudar para Lisboa para o Colégio dos Inglezinhos[1] vivendo em casa dos Condes de Casal Ribeiro[2] amigos da família Pindela.
Cursou Matemáticas na Universidade de Coimbra, completando os seus estudos na Escola Politécnica e na Escola do Exército. Seguiu a carreira militar, na Arma de Engenharia, assentando praça em 7 de Novembro de 1871, promovido a Alferes, em 29 de Dezembro de 1877, a Tenente, em 14 de Janeiro de 1880, a Capitão, em 31 de Outubro de 1884, a Major, em 14 de Novembro de 1901 e a Tenente-Coronel do E.M., na mesma data. Passou à reforma no posto de General de Brigada em 27 de Fevereiro de 1908, logo após o Regicídio.
Entrou ao serviço do Paço como Oficial-Mor da Casa Real e Oficial às Ordens dos Reis D. Luiz I e D. Carlos I.
Casou duas vezes, a 1ª, a 16 de Julho de 1877, em Lisboa, com D. Maria José de Mello Abreu Soares Vasconcelos Brito Barbosa e Palha, n. a 9 de Julho de 1857 , em Lisboa e f. a 10 de Janeiro de 1882, em Lisboa; filha secundogénita dos 3ºs. Condes de Murça - D. José de Melo Abreu Soares de Vasconcelos Brito Barbosa e Palha e, de sua mulher, D. Ana de Sousa Coutinho Monteiro Paym; e a 2ª, em Lisboa, a 28 de Maio de 1890, com D. Matilde Munró dos Anjos, n. a 22 de Maio de 1874, em Lisboa e, f. no Lumiar em 1964, filha do Conselheiro Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos - Par-do-Reino, capitalista e comerciante e, de sua mulher D. Alice Munró, de origem irlandesa. De ambos os casamentos há descendência, sendo seu representante, o autor destas linhas.
Em 1887 foi designado para Secretário da Embaixada Extraordinária à Corte Imperial de Pequim chefiada pelo Conselheiro General Tomás Rosa tendo sido um dos subscritores do Tratado Luso-Chinês , assinado em Dezembro de 1887. No Celeste Império reinava o Imperador Guangxu, da dinastia Qing, sob a tutela de sua tia a toda-poderosa Imperatriz regente Cixi ou Tseu-Hi.
Por entre os afazeres da missão, houve tempo para visitar as termas do Imperador Qianlong, os túmulos Ming e a Grande Muralha e de anotar aspectos da vida pública e privada, as instituições políticas e o governo, usos e costumes, o cerimonial civil e religioso, a vida na Cidade Proibida, a arte, a literatura e a filosofia chinesas e a figura da Imperatriz viúva Cixi, que patrocinou uma política crescentemente conservadora e nacionalista, pondo fim às tentativas de reforma do reinado de seu marido, tentando em vão pôr cobro à cobiça das potências ocidentais.
Dessa longa viagem que o levou ao Egipto, Singapura, Macau, Hong Kong, Xangai, Tien-Tsin, Pequim, Japão e Estados Unidos, deixou-nos um relato das suas impressões, publicado parcialmente na «Revista de Portugal», fundada e dirigida por seu amigo Eça de Queirós (Lisboa, vol.1, Agosto de 1889) e, em volume sob o título «Jornadas pelo Mundo», publicado no Porto, pela Livraria Magalhães & Moniz, em 1895. «Jornadas pelo Mundo» constitui «indiscutivelmente um dos mais importantes testemunhos portugueses escritos sobre a China de finais do século XIX»[3] ou, «num dos mais genuínos livros de viagens à China» na opinião de Manuela Delgado Leão Ramos[4].
A visita ao extremo oriente fascinou Bernardo Pindela e dela trouxe várias peças de arte oriental, porcelanas, estatuária em madeira, e cabaias de seda, a mais famosa das quais foi a oferecida a seu dilecto amigo Eça de Queirós e que hoje se guarda na Fundação Eça de Queirós.


Os «Vencidos da Vida»

Fez parte do célebre grupo os "Vencidos da Vida" que se reuniam em ágapes que deram brado no Braganza e no Tavares ou, em sua casa, na à Lapa[5].
Sendo íntimo e dedicado amigo de Eça de Queirós, após a sua morte, apresentou, em 15 de Março de 1901, um projecto de lei na Câmara dos Pares, destinado a conceder uma pensão á viúva e filhos de Eça de Queiroz fazendo o elogio do escritor, dizendo designadamente:
«Se é certo que o Visconde de Almeida Garrett imprimiu á nossa lingua o sabor de um modernismo, que a revolucionou, escrevendo paginas de uma tal simplicidade, que conservam através do tempo toda a frescura de uma impressão primeira; se Alexandre Herculano nos legou, em paginas lapidares, mais do que uma litteratura, os fortes delineamentos da nossa historia, tão rica de feitos gloriosos; se Camillo Castello Branco deixou, em muitos dos seus livros, exemplos dos primores da nossa lingua, chegando muitos d'elles a attingir a feição clássica; se Oliveira Martins, a exemplo do que Garrett fizera na litteratura, revolucionou a nossa historia imprimindo-lhe, numa linguagem limpida, um forte sabor moderno: Eça de Queiroz, com vocabulario relativamente restricto, deu á lingua portuguesa uma tal maleabilidade que ella póde na sua mão, como a paleta mais rica, dar desde as cores mais quentes e vivas até aos tons mais esbatidos e delicados.»
Promoveu também a realização de um monumento que consagrasse a memória do grande escritor desaparecido - "A VERDADE", esculpida por Teixeira Lopes e, que foi entregue à cidade de Lisboa em 9.XI.1903, na pessoa do então Presidente do Município - o conde de Ávila, tendo o conde de Arnoso evocado em cerimónia pública a memória do escritor e do amigo desaparecido.
Acompanhou D. Carlos I nas suas visitas a França, à Alemanha e a Espanha e fez parte da comitiva oficial na visita de estado à Grã-Bretanha por ocasião dos funerais de S. M. a Rainha Vitória e na visita oficial aos Açores e Madeira. Acompanhou também o Príncipe D. Luís Filipe a Londres para as cerimónias de coroação de Eduardo VII, rei da Grã-Bretanha.
Amigo fidelíssimo de D. Carlos e seu secretário particular desde a sua subida ao trono em1889, acompanhava com frequência el-rei nas suas deslocações a Vila Viçosa e a nas caçadas na Real Tapada de Mafra.
Casa de S. Bernardo, Cascais

Para estar mais perto do monarca durante as estadias da Família Real em Cascais, mandou construir (1894) uma casa de verão de traça tipicamente minhota junto ao mar - Casa de S. Bernardo, que hoje infelizmente já não está na posse da Família.
Em 1895, o rei D. Carlos I no dia do seu aniversário concedeu-lhe o título de Conde de Arnoso, em duas vidas tendo a 2ª vida verificado em seu filho primogénito - o 2º Tenente da Armada Real João Maria Rodrigo Pinheiro de Figueira e Melo, por Decreto de 1904.
Foi nomeado Par-do-Reino por Carta Régia, de 29 de Dezembro de 1900, tendo prestado juramento e tomado assento na Câmara dos Pares na sessão de 6 de Março de 1901.
Após o regicídio, e numa época de profunda crise de valores, política e socialmente conturbada, usou corajosamente a tribuna da Câmara dos Pares do Reino para clamar que fosse feita Justiça ao monarca e ao príncipe D. Luís Filipe assassinados no Terreiro do Paço, reverberando o governo pela complacência demonstrada na punição dos responsáveis pelo crime[6]. Desgostoso com a política e com os homens, retirou-se da vida pública após a proclamação da República, para a sua casa perto de Pindela onde viria a falecer no solar de seus maiores.
Num discurso na Câmara dos Pares proferido a 9 de Maio de 1908, definia-se deste modo: «A politica nunca me seduziu. Convidado, instado ha annos pelo ultimo, prestigioso, mallogrado chefe do partido regenerador, a assumir a gerencia da pasta dos Negocios Estrangeiros, numa situação a que ia presidir, terminantemente recusei tamanha honra, apesar das repetidas e demoradas instancias que me foram feitas».
Passou à história como exemplo de lealdade, de fidelidade e de nobreza de carácter.



Publicou as seguintes obras: "Azulejos", com prefácio de Eça de Queirós, 1886; "De Braço Dado", Lisboa, 1894, em colaboração com seu cunhado o Conde de Sabugosa; “O Talisman” (ilustrado por Casanova), Porto, 1897;"A Primeira Nuvem", Lisboa, 1902, peça de teatro, representada em 1894; a peça "O Suave Milagre", Lisboa, 1902, de colaboração com seu amigo, o diplomata Alberto de Oliveira - adaptação ao teatro do conto de Eça de Queirós, a qual subiu à cena no Teatro D. Maria II, em 28 de Dezembro de 1901, por ocasião da qual, S.M. el-Rei lhe ofereceu uma aguarela da sua autoria representando uma cena da peça; Elogio do Conde de Ficalho, in «Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa», 21.ª série, N.º 5, Maio de 1903; "Vila Viçosa", Separata de "A Arte e a Natureza em Portugal", Porto, 1904 e,"Justiça! - Sessão Parlamentar de 1909 (Discursos), 1ª ed., Lisboa, 1909.

Foto Ana Carla (Abril 1998)

A cidade de Guimarães onde nasceu prestou-lhe uma homenagem por iniciativa do Engº Duarte do Amaral, erguendo-lhe uma estátua, da autoria do escultor Joaquim Correia inaugurada em 1961, por sua filha D. Maria do Carmo, duquesa de Palmela e colocada no Largo da República do Brasil.
O município de Vila Nova de Famalicão, em 1 de Junho de 1995, também lhe prestou uma tocante homenagem colocando um busto em bronze, nos jardins da Biblioteca Municipal, descerrado por sua filha mais nova D. Teresa Pinheiro de Melo Magalhães, em cerimónia a que compareceram vários dos seus netos e bisnetos.
Em 2008, por iniciativa da Real Associação de Lisboa, foi descerrada uma lápide, na Rua do Arsenal em Lisboa, comemorativa do regicídio e, em que se evocou a figura do conde de Arnoso que na época havia sido apelidado pelos seus detractores como o «Conde da Lápide» por exigir a punição dos regicidas e dos seus instigadores e «...que na arcada do Terreiro do Paço, onde o horrendo crime se commetteu, uma lapide de marmore perpetue os nomes das martyrizadas victimas».



Diploma de Oficial da Ordem Militar de S. Bento de Aviz (1902) (BNP)


Possuía, entre outras, as seguintes condecorações: Comendador das Reais Ordens Militares de Aviz e de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa; Grã-Cruz de Affonso XII, do Mérito Militar e de Carlos III e Comendador de Número de Isabel, a Católica, de Espanha (1903); Grande-Oficial da Legião de Honra, de França (1905); Grã-Cruzes da Real Ordem de Victória (1903), da Grã-Bretanha; de São Estanislau, da Rússia; de Alberto de Saxe; de Francisco José, da Áustria; de Mecklemburgo; do Duplo Dragão, 3ª Divisão, 1ª Classe, da China (1887); Comendador da Coroa Real da Prússia (1895) e Cavaleiro de S. Maurício e S. Lázaro, da Itália.


No retrato acima, datado de 1886, veste uniforme militar e ostenta a placa de comendador de número da Ordem de Isabel, a Católica, de Espanha, e a insígnias de cavaleiro das Ordens de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Ordem de S. Maurício e S. Lázaro, de Itália.

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Notas
[1] Cf. Luís de Oliveira Guimarães, O Conde de Arnoso, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1958 e Debrett's Peerage, Baronetage and Knightage, 1904 Printed by Dean & Son, London, 1904. O Prof. Amadeu Carvalho Homem (O Primeiro Conde de Arnoso e o seu tempo) e meu primo João Afonso Machado (O Morgadio de Pindela) referem por seu turno o Colégio Luso-Brasileiro, em Lisboa, à Rua de S. Felipe Néri.
[2] Foi 1º Conde de Casal Ribeiro - José M.ª Caldeira do Casal Ribeiro (1825-1896), dedicou-se ao jornalismo fundando em Lisboa o jornal A Civilização. Partidário da Regeneração foi eleito deputado em 1850, foi Ministro da Fazenda em 1859, e, em 1860, dos Negócios Estrangeiros e, mais tarde, das Obras Públicas. O Marquês de Loulé nomeou-o Ministro em Paris cargo em que se manteve até 19-5-1870. Desempenhou o cargo de Ministro em Madrid no qual viria a morrer. Foi casado com D. M.ª da Conceição Quintela Emauz. Foi Conselheiro de Estado efectivo, Par-do-Reino (1865), sócio da Academia Real das Ciências e da Academia de História de Madrid. Seu filho varão primogénito, José Frederico do Casal Ribeiro que, nasceu em Lisboa, em 28 de Abril de 1851 e, morreu em 31 de Julho de 1907, foi educado com o Conde de Arnoso.
[3] Os Portugueses e o Oriente: Sião, China, Japão (1840-1940): Mostra bibliográfica, 4 de novembro de 2004 - 29 de Janeiro de 2005. - Lisboa: BN, 2004, p. 89
[4] Manuela Delgado Leão Ramos, António Feijó e Camilo Pessanha no Panorama do Orientalismo Português, Lisboa, Fundação Oriente, 2001
[5] Em carta de Salamanca e Paris, de 1899, dirigida ao Conde de Arnoso, Eça de Queirós referia-se assim a um desses repastos: «Essa adorável casa de S. Domingos à Lapa, apesar do seu santo nome, era a diabólica Ilha dos Lotófagos, onde, depois de comer a flor de Loto (ponhamos o bacalhau assado) a gente tudo esquecia envolta em beatitude. Em torno de mim boiavam Sereias».
[6] Cf. M. Castro Henriques, O Culto dos Regicidas

Bibliografia:
Alberto Pereira d'Almeida, Álbum dos Vencidos, ed. do Autor, Lisboa, 1912-1914, artigo sobre o Conde de Arnoso, pp. 30-36. Alfredo Gomes Dias, Conde De Arnoso: Diplomata e Orientalista, Comunicação, na integrada no Ciclo de Conferências promovido pela Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, Gentes da Terra, V. N. de Famalicão (Casa Pindela, 13 de Maio de 2005) Amadeu Carvalho Homem, O Primeiro Conde de Arnoso e o seu tempo, V. N. de Famalicão, Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 1998 António Rodrigues Cavalheiro, Cartas de Mouzinho de Albuquerque ao Conde de Arnoso, prefácio, Lisboa, 1957; reproduzido sob o título «Três Grandes Sombras», in "Política e História", Livraria Sam Carlos, Lisboa 1960; Augusto de Castro, O Conde de Arnoso, conferência na Sociedade Martins Sarmento em 29 de Abril de 1961, sep. da «Revista de Guimarães», vol. LXXI, nos. 1-2, Guimarães, 1961; Caetano Alberto, O Monumento a Eça de Queirós, in «Almanach Illustrado do Occidente para 1905», pp. 58-59, cit. por João Medina, ob. cit. pp. XXVII Carlos Pinto dos Santos & Orlando Neves, De longe à China: Macau na historiografia e na literatura portuguesas, Instituto Cultural de Macau, 1996 Eça de Queirós, - Correspondência, leit., pref. e notas de Guilherme de Castilho. Lisboa: IN-CM, 1983 Eça de Queiroz, Correspondência, organização e notas de A. Campos Matos (2 volumes, ed. Caminho, 2008) Eugênio de Andrea da Cunha e Freitas, O Conselheiro Camelo Lampreia, Diplomata, um Espólio Valioso, in Actas do Colóquio «A Diplomacia na História de Portugal», Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1990, pp. 311-332 F. A. de Oliveira Martins, D. Carlos I e os «Vencidos da Vida», Parceria Antº M.ª Pereira, 2ª ed., Lisboa, 1942 Jaime Lopes Dias, Cartas do Conde de Arnoso, in «Estudos de Castelo Branco», nº 10, 1963, pp. 72-82
João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos – A correspondência (1886-1916) entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó, Linda-a-Velha, DG Edições, 2007 João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, Ed. do Autor, 1999, pp. 121-132 Júlio de Sousa e Costa, O Rei D. Carlos I - Factos Inéditos do seu tempo (1863-1908), Livraria Bertrand, Lisboa, 1943 Luís de Oliveira Guimarães, O Conde de Arnoso, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1958; Luiz Vieira de Castro, D. Carlos I, (Elementos de história diplomática), 2ª ed. Lisboa, Ed. Império, 1941; Manuel Teixeira, Macau visto pelo Conde de Arnoso, in "Revista de Cultura", Macau, 2 (7-8) Out. 1988-Mar. 1989, p. 63-78 Manuel da Silva Gaio & Joaquim de Carvalho, Os vencidos da vida, Imprensa da Universidade, 1931 Maria Filomena Mónica, Eça de Queiroz, Lisboa, Quetzal Editores, 2001, Maria José Marinho, Espólio do Conde de Arnoso [BN Esp. 32]: inventário. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005 Os Vencidos da Vida - Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Carlos Lobo d’Ávila & Outros, Lisboa -Fronteira do Caos, 2006 Raquel Henriques da Silva, Cascais, Editorial Presença, Lisboa, 1988 Ricardo A. Alves, Eça e os Vencidos da Vida em Cascais, Câmara Municipal, 1988 Rui Ramos, D. Carlos, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006 Rui Ramos, A Segunda Fundação (1890-1926), in «História de Portugal» dir. por José Mattoso, Vol. VI, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, com destaque para «A Vida Nova» pp. 125-299 Rui Ramos, João Franco: uma educação liberal (1884-1897), in «Análise Social», vol XXXVI, /160’), 2001, pp. 735-766 VVAA, Conversas no Turf em torno de Os Vencidos da Vida, Lisboa, Tribuna da História, 2008

terça-feira, 10 de março de 2009

D. Pedro, duque de Bragança (1831-1834) Revisto

SMI o Snr. D. Pedro, Duque de Bragança [BNP - PURL 4230/1]


Nesta gravura, o ex-Imperador Dom Pedro I, ora titulado de Duque de Bragança, surge representado com a Banda e Placa de Grã-Cruz da Ordem Imperial do Cruzeiro, por ele instituída, em 1 de Dezembro de 1822 para assinalar a sua Aclamação e Coroação como Imperador do Brasil e aludindo à posição geográfica do Brasil, sob a Constelação do Cruzeiro.
A gravura deve ser de data posterior à sua abdicação da coroa Imperial do Brasil (7.04.1831) mas, anterior a 28 de Julho de 1832 – data do decreto de D. Pedro, pelo qual se «reformou» a Ordem da Torre e Espada.
Descrição da placa:
Anverso – Estrela de cinco raios bifurcados, de prata, assente sobre grinalda de ramos de café e fumo, carregada ao centro de um medalhão redondo, azul-celeste, carregado de uma cruz latina formada por dezanove estrelas, de prata, o todo circundado por orla, azul-ferrete, com a legenda "Benemeritium Praemium". O todo encimado por uma coroa imperial.
Reverso – Igual ao anverso, com alteração no medalhão para a efígie de D. Pedro I, e na legenda para "Petrus I – Brasiliae Imperator D".
A cor da banda e fita: azul-celeste.

S. M. I. O Senhor D. Pedro Duque de Bragança
Litografia de Maurício José do Carmo Sendim – [BNP - PURL 4224/1]

Nesta outra gravura certamente de Setembro de 1834, pouco antes de falecer, o ora Duque de Bragança é representado com a insígnia da Ordem do Tosão de Ouro (1801), a Banda e o Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por si «reformada» e com a banda e placa de Grã-Cruz da Ordem Imperial do Cruzeiro. A grã-cruz da ordem da Torre e Espada foi-lhe imposta pela rainha D. Maria II em Setembro de 1834.
Trata-se portanto de uma das primeiras representações iconográficas de insígnias da Ordem da Torre e Espada reformada por D. Pedro em 1832. Ignora-se a origem deste belo colar e onde e por quem terá sido fabricado, podendo porém admitir-se que tivesse sido executado em França, na Inglaterra ou até no Brasil.

Em ambas as gravuras, tendo abdicado das coroas de Portugal e do Brasil, D. Pedro deixou de usar insígnias de ordens portuguesas e as das restantes ordens Imperiais brasileiras.

Há no entanto iconografia mais tardia que o representa também usando a Banda e Placa das Três Ordens, vg. retrato a óleo de João Baptista Ribeiro, no Palácio Nacional de Queluz ou a litografia de Serrano, datada de 1866, na colecção da Biblioteca Nacional de Portugal. Facto de estranhar - e que se deve apenas a propaganda política - já que, D. Pedro só poderia porventura ter usado aquelas insígnias no curtíssimo espaço de tempo em que foi considerado rei de Portugal, com o título de D. Pedro IV - desde 26 de Abril de 1826 até à sua abdicação, em Maio de 1926.

Dom Pedro (12.10.1798 — 24.09.1834) - (I) Imperador do Brasil (12.10.1822 – 07.04.1831)

(IV) Rei de Portugal (26 de Abril - 2 de Maio de 1826)


Filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha de Carlos IV rei de Espanha. Infante de Portugal, Grão-Prior do Crato, da ordem de Malta, Príncipe da Beira (1801), Príncipe do Reino Unido de Portugal do Brasil e Algarves e Príncipe Regente do Reino do Brasil (1821).
Com a declaração da independência do Brasil foi aclamado Imperador, com o título de D. Pedro I, em 12 de Outubro de 1822. Em 1826 após a morte de seu pai foi reconhecido pela Regência como sucessor da Coroa que lhe enviou uma deputação presidida pelo duque de Lafões. Aceitando a coroa em 26 de Abril de 1826, D. Pedro I decidiu outorgar uma Carta Constitucional à Nação Portuguesa e abdicou da coroa em sua filha D. Maria da Glória, na condição da Carta ser aceite e de seu irmão o Infante D. Miguel casar com a jovem rainha e ficar Regente.
Com a morte de D. João VI abriu-se em Portugal uma questão dinástica com fortes contornos político-ideológicos que dividiu os portugueses entre os partidários de D. Pedro (liberais) e os da legitimidade do Infante D. Miguel (apostólicos ou miguelistas) e que conduziria à Guerra Civil de 1832-1834. Se, sob o ponto de vista jurídico, os direitos de D. Pedro I, Imperador do Brasil, à sucessão da Coroa, eram discutíveis por ter sido o obreiro da independência do Brasil e se ter tornado soberano de outro país e por não caber ao rei nomear sucessor sem a aprovação das Cortes, não é menos certo que, estava em causa acima de tudo, o modelo de governo a adoptar – o absoluto ou o liberal e constitucional. O primeiro era o apoiado pelas potências da Santa Aliança e o segundo, pela Inglaterra e pelas correntes que em Espanha e em Portugal tinham promovido «revoluções liberais» em 1812 e em 1820.
Tendo sido forçado a abdicar da coroa Imperial em seu filho D. Pedro, em Abril de 1831, D. Pedro decidiu rumar á Europa para assumir o comando da luta pelos direitos de sua filha, que haviam sido «usurpados» por D. Miguel em 1828 ao faltar ao seu juramento e se ter proclamado rei absoluto com o apoio das Cortes. Em 1832 aporta aos Açores onde se auto-proclama Regente, sob o título de Duque de Bragança e nomeia um governo constituído por Mouzinho da Silveira, Marquês de Palmela e Agostinho José Freire preparando uma força expedicionária para invadir Portugal contando com a benevolência da França Orléanista e da Inglaterra, onde o Duque de Wellington havia já abandonado o poder no ano anterior.
Em 8 de Julho de 1832 uma força constituída por voluntários, na sua maioria liberais exilados políticos que haviam fugido à repressão encetada pelos governos de D. Miguel a partir de 1826 e por mercenários recrutados na Inglaterra, Bélgica e Alemanha desembarcou na praia do Pampelido dirigindo-se ao Porto que ocupam.
Inicia-se a guerra civil que, com altos e baixos para as forças liberais duraria até Maio de 1834, com a assinatura da Convenção de Évora-Monte, que levou D. Miguel ao exílio e ao desmembramento do exército realista. Decisiva foi a mudança da política europeia em Abril desse ano, com a decisão da Quádrupla Aliança de intervir militarmente contra o governo de D. Miguel I e o consequente envio de tropas Britânicas e de tropas espanholas para Portugal.
Após a Convenção de Évora-Monte, D. Pedro morre desiludido em Setembro de 1834.
Sua filha a rainha D. Maria II atribui-lhe o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Foi assim dos poucos galardoados com as duas ordens, já que era também, desde 1808, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada fundada por seu pai, o então Príncipe-Regente D. João.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Jornadas na Lousã sobre Invasões Francesas

A Câmara Municipal da Lousã tem vindo a promover várias actividades culturais no âmbito das «I Jornadas - As Invasões Francesas e a Península Ibérica: a Europa e o dealbar do século XIX»:

  • Exposição "Literatura das Invasões Francesas", Biblioteca Municipal da Lousã, até dia 6 de Março
  • Exposição cartográfica "Portugal em vésperas das Invasões Francesas - Conhecimento Geográfico e Configurações, Biblioteca Municipal da Lousã, dias 10-31 de Março. Apoios: Comissão Coordenadora do Exército para as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular / Instituto Geográfico do Exército (IGeoE)
  • I JORNADAS na LOUSÃ - As Invasões Francesas e a Península Ibérica: A Europa e o dealbar do séc. XIX
    27 Março 2009

    200 Anos de Invasões Francesas assinalados na Lousã

    Apoios: Universidade de Coimbra / Faculdade de Letras; Comissão Coordenadora do Exército para as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular.

sábado, 7 de março de 2009

Tenente-Coronel Sir Robert John HARVEY, Cav. TE, Com. A, Med. Com. GP (10), Cruz Cond. GP (5)



Major-General Sir Robert John HARVEY, CB, KTS, FRS, FAS (1785-1860)
Mousehold House, Norwich



Era filho de John Harvey, Esq, de Thorpe Lodge, Norfolk e de Frances Kerrinson, filha de Sir Roger Kerrinson, de Brooke House. Em 1815 casou com a sua parente Charlotte Mary, filha de Robert Harvey, Esq., de Watton. Foi um dos Oficiais Ingleses que se distinguiu ao serviço do Exército Português durante as Campanhas da Guerra Peninsular.
Em Março de 1809 integrou a força expedicionária que foi enviada para Portugal sob o comando do Major-General Lord Hill, sendo Capitão do 53º Regimento de Infantaria. Um ano depois foi promovido a Major e nomeado Adjunto do Quartel-Mestre-General do Exército Português agregado ao quartel-general do Comandante-em-Chefe do Exército, o Marechal William Carr Beresford.
Em 1811, o Marechal Beresford destacou o Major Harvey para o Quartel-General do Marechal Lord Wellington - Comandante-em-Chefe do Exército Aliado, como oficial de ligação com as tropas Portuguesas no terreno e nomeou-o Chefe-do-Estado-Maior do Exército na sua ausência, cargos que exerceu até ao final da Guerra em 1814[1].
Destacou-se particularmente na organização de 9 corpos de guerrilha[2] e das Ordenanças e na montagem de um serviço de informações devido às suas notáveis capacidades linguísticas e ao perfeito domínio do Francês e do Alemão.
Participou, nomeadamente, nas seguintes acções ou batalhas: Porto, Buçaco, Salamanca, Vitoria, Pirinéus, Nive, Nivelle, Orthez e Toulouse e nos cercos de Ciudad Rodrigo, Burgos, Badajoz e San Sebastian. Após a captura de Badajoz, em Abril de 1812, Harvey foi promovido a Tenente-Coronel do Exército Português e, após as batalhas de Salamanca e de Vitoria, sob recomendação do marechal Lord Wellington, foi também promovido a Tenente-Coronel no Exército Britânico,
Pelos seus brilhantes e destacados serviços na Guerra Peninsular, o Príncipe-Regente D. João conferiu-lhe em 17 de Dezembro de 1815, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada[3].
Em 1820, foram-lhe também concedidas por D. João VI, a hoje rara, Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular (10), [Buçaco / Ciudad Rodrigo / Badajoz / Salamanca / Vitoria / Pirinéus / Nivelle / Nive / Orthez / Toulouse] e, a Cruz de Condecoração da Guerra Peninsular para Oficiais, de Ouro (5 campanhas) (O.D. 31 / 1820)[4].
Em data que se ignora, mas certamente posterior a 1826, o Major-General Sir Robert John Harvey foi também agraciado com o grau de comendador da Ordem Militar de Avis.
Jorge - Príncipe-Regente da Grã-Bretanha, não só lhe concedeu autorização para usar a Torre e Espada, por Alvará, de Maio de 1816, como o nobilitou, concedendo-lhe o título de cavaleiro em 6 de Fevereiro de 1817[5], a que acresceu a concessão da Ordem do Banho, no grau de Companheiro, em 1831.
Promovido a Coronel em Julho de 1830, a Major-General, em Novembro de 1841, e a Tenente-General em Novembro de 1851.

Existe um retrato - em gravura aberta a buril por Charles King, segundo um pintura de T. Stewardson Esqr, datada de 1821) - no qual Sir Robert John Harvey exibe orgulhosamente as suas condecorações Portuguesas – a insígnia de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular (10) e a Cruz de Condecoração da Guerra Peninsular para Oficiais, de Ouro, bem como a Britânica Army Gold Medal (Orthez). A insígnia da Ordem de Avis não figura neste retrato o que prova que à data ainda não a tinha recebido.

Sir Robert John Harvey usou também dois ex-líbris heráldicos nos quais ostentou as suas condecorações, mormente a ordem da Torre e Espada.

O primeiro (v. ilust.) [6] com armas de Harvey, de Thorpe, com um escudete sobreposto com as armas de Harvey, com vários acrescentamentos honrosos: chefe, de vermelho, carregado da Army Gold Medal (Orthez) entre dois crescentes, de prata; e, um cantão, de arminho, carregado da insígnia de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada[7]. Pendente do escudo, também a insígnia da Ordem da Torre e Espada o que ocorre raramente em armas Britânicas, demonstrando o alto apreço em que Sir Robert John Harvey tinha esta distinção.
Sir Robert J. Harvey possuiu outro ex-líbris heráldico de confecção mais modesta, em stencil, em que já figura a insígnia de comendador da Ordem Militar de Avis pendente do escudo[8].
As condecorações do Major-General Sir Robert J. Harvey dispersaram-se, vendidas em leilões, nomeadamente da Christie, em 24.04.1992 e da Spink, em 25.09.2001, segundo amável informação de Paulo Estrela.

Agradeço ao Paulo Estrela o valioso apoio na identificação das condecorações da Guerra Peninsular que figuram no retrato de Sir Robert J. Harvey.
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[1] Para detalhes da sua carreira militar cf. o Obituário publicado no «The Gentleman's Magazine», London, 1860, pp. 191-193
[2] H G Hart, Hart's Annual Army List, Militia List, and Imperial Yeomanry List, J. Murray, 1845, p. 26
[3] Paulo Estrela, Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa, Tribuna da História, 2009, p. 232
[4] ibidem, pp. 239 e 242
[5] Francis Townsend, Calendar of Knights: Containing Lists of Knights Bachelors, British Knights of Foreign Orders ..., W. Pickering, 1828, pp. 30 and 92
[6] cf. Frank's Collection Catalogue, # 14013, vol. 2, p. 29
[7] John Burke & John Bernard Burke, The Knightage of Great Britain and Ireland, London, 1841, pp. 169-170 e Burke's Genealogical and Heraldic History of the Landed Gentry, Vol 1, London, Henry Colburn, 1847, p. 544
[8] John Blatchly, Elegant Economy: the stencilled ex-libris, in «The Bookplate Journal», Vol. 4, #1, March 2006, p.37, referindo a Ordem de Avis, see, Hart’s, op. e loc, cit., p. 471

sexta-feira, 6 de março de 2009

2º Visconde de Pindela (1852-1922)

Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada
2º Visconde de Pindela

(Guimarães, 23.IV.1852 – Pindela, 14.IV.1922)

Senhor da Casa de Pindela, Par do Reino, Bacharel em Direito, político, diplomata, genealogista e escritor.
Filho primogénito de João Machado Pinheiro Correia de Melo, 1º visconde de Pindela e de sua 2ª mulher, D. Eulália Estelita de Freitas Rangel de Quadros
Casou em Lisboa, a 23 de Maio de 1889, com D. Maria Amália de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, n. 28.12.1855 e f. 14.04.1918, filha do 2º Conde de Vila Real e senhor do Morgado de Mateus e de sua mulher D. Júlia Braamcamp de Almeida Castelo-Branco.
Em 1879 concluiu a formatura em Direito na Universidade de Coimbra e, em Novembro, foi nomeado Governador de S. Tomé e Príncipe pelo governo progressista de Anselmo José Braamcamp, cargo que exerceria até final de 1881, já com Fontes Pereira de Melo na presidência do Ministério e Melo Gouveia, na pasta da Marinha e Ultramar.
Nas eleições de 29 de Junho de 1884, ganhas pelos regeneradores é eleito deputado pelo círculo de Braga para a 25ª legislatura.
Em Fevereiro de 1886 chega ao poder o novo líder dos progressistas José Luciano de Castro que preside ao Governo, com Henrique Barros Gomes na pasta dos Estrangeiros. O governo nomeia-o então Ministro Plenipotenciário, em Haia. No mesmo ano, Dom Luís I por decreto de 20 de Maio e carta de 8 de Julho concede ao visconde de Pindela uma segunda vida no título, na pessoa de seu filho Vicente Pinheiro Machado.
Em 1893 é transferido para Berlim como Ministro Plenipotenciário, cargo em que se mantém até à implantação da República em 1910, período em que se sucederam 5 governos até ao Regicídio e 6 em apenas cerca de dois anos e meio, no reinado de D. Manuel II.
Em 1895 participa na organização da viagem do rei D. Carlos I à Alemanha, visita que seria retribuída pelo Kaiser Guilherme II, em 1905. Pela sua colaboração na negociação e assinatura do acordo Luso-Alemão de comércio, D. Carlos I confere-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em 1902.

Embora residindo no estrangeiro entre 1886-1910, apenas com algumas vindas a Portugal para férias, idealizou e levou a cabo a modernização da Casa de Pindela, fundada por seus avoengos, aumentando-a, designadamente com uma torre de sabor medieval, embelezando-a com tectos em castanho, fogões de sala, painéis de azulejo e introduzindo comodidades modernas, obras que se iniciaram por volta de 1890 e que decorreram durante quase duas décadas.
Na Casa de Pindela recebeu grandes personalidades da cultura, da política e da diplomacia da época, destacando-se alguns dos ilustres membros do grupo dos «Vencidos da Vida», como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e o Conde de Ficalho. Seu amigo, o poeta e diplomata António Feijó foi um dos assíduos visitantes de Pindela[1]
Grande coleccionador de armaria reuniu um importante acervo de armas brancas e de fogo e de armaduras dos séculos XV-XIX, portuguesas e estrangeiras. Parte da colecção de armas brancas viria a ser vendida ao Estado e encontra-se hoje exposta no Paço Ducal de Guimarães[2]. Notável também a sua colecção de gravuras a talhe doce que vieram embelezar Pindela após se ter retirado da vida diplomática e política.
Foi também um apaixonado pela Caça, desporto que praticava com entusiasmo acompanhado de célebres matilhas de cães das raças Galgo e Podengo, que criava e seleccionava para o efeito.

No retrato acima, datado de 1904, em Berlim, o 2º Visconde de Pindela veste farda de Embaixador e ostenta as seguintes condecorações:
o Banda e placa de Grã-Cruz da Ordem de Cristo (1895)
o Placa de Comendador
da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1880)
o Placa de
Grã-Cruz da Ordem da Coroa da Prússia
o Placa de Grã-Cruz da Ordem da
Coroa
de Ferro, do Império Austro-Húngaro
o Placa de Grã-Cruz da Ordem
da Casa
Ducal de Saxe-Ernestina
o Placa de Grã-Cruz da Ordem de Alberto,
do reino de
Saxe
o Placa de Comendador da Ordem de Casa de Hohenzollern,
da Prússia
o Uma das placas encontra-se oculta pela banda, mas pensamos
poder tratar-se da placa de Grã-Cruz Ordem do Leão, dos Países-Baixos.
Após esta data, o 2º visconde de Pindela ainda foi agraciado com o grau de Cavaleiro, 1ª classe da Ordem da Águia Vermelha do Império Alemão, por ocasião da visita a Lisboa do Kaiser Guilherme II, em 1905, com a comenda da Ordem da Estrela Polar, da Suécia e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Naval, de Espanha. Não conseguimos porém confirmar a outorga da ordem da Águia Negra, do Império Alemão
Após a proclamação da República retirou-se da vida pública e retirou-se para a sua Casa de Pindela, situada cerca de Vila Nova de Famalicão.
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Publicou:
Vicente Pinheiro Lobo Machado de Mello e Almada, As ilhas de S. Thomé e Príncipe (notas de uma administração colonial), Lisboa : Typographia de Academia Real das Sciências, 1884
__________, Administração Colonial, Lisboa, 1885;
_________, Discussão do Acto Geral da Conferência de Berlim — Política Colonial [Discurso], Lisboa, 1885.
__________, Árvores genealógicas dos Senhores de Pindella, Braga, 1869.
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Bibliografia:
João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, ed. do Autor, 1999, capítulo XIV
Notas:
[1] Cf. João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos – A correspondência (1886-1916) entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó, Linda-a-Velha, DG Edições, 2007
[2] Alfredo Guimarães, As armas brancas do solar de Pindela, Porto, Instituto para a Alta Cultura, 1946

quinta-feira, 5 de março de 2009

6º Marquês de Marialva [Revisto]

Gravura de C. S. Pradier segundo pintura de J. Madrazo y Agudo (1819 ?)

D. Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1774 - 1823)
8º conde de Cantanhede; 6º Marquês de Marialva

Gentil Homem da Câmara da rainha D. Maria I, Estribeiro-Mor, Brigadeiro e diplomata.
Filho de D. Diogo José Vito de Meneses Noronha Coutinho (1739-1803), 7º conde de Cantanhede e 5.º marquês de Marialva alistou-se como cadete em Outubro de 1786, no Regimento de Cavalaria de Alcântara, de que o seu pai era coronel e que já havia sido comandado por seu avô e bisavô, os 4º e 3º marqueses de Marialva.
Segundo Manuel Amaral, «... em 1796 foi nomeado ajudante de ordens de seu cunhado o Duque de Lafões e em 1801 foi promovido a coronel e nomeado comandante do Regimento de Cavalaria de Mecklemburgo. Comandou o regimento quando este saiu de Lisboa, dirigindo-se com parte da guarnição de Lisboa, e a Brigada de Emigrados franceses a soldo da Grã-Bretanha, em reforço do exército do Alentejo que recuava para o Gavião, perto de Abrantes.... Em Setembro de 1802 foi nomeado Director do Arquivo Militar para a conservação das Cartas militares, geográficas e marítimas, função que manteve até à chegada do exército francês de ocupação, comandado por Junot» (cf.
http://www.arqnet.pt/exercito/marialva.html).

Em Novembro de 1807, no mesmo dia em que chega ao Tejo a esquadra Inglesa sob o comando do Vice-Almirante Sidney Smith, o Marquês de Marialva partiu para França, enviado pelo Príncipe-Regente D. João, por sugestão de António de Araújo e Azevedo, como Embaixador ao Imperador Napoleão I, levando consigo valiosos diamantes como presente e tendo como missão o de convencer o Imperador a desistir dos seus projectos em relação a Portugal bem como a negociar o casamento do Príncipe da Beira com uma sobrinha de Napoleão, filha do Grão-Duque de Berg, General Murat. No entanto, os acontecimentos precipitaram-se e Marialva ainda em Madrid, em finais de Novembro, sabe da partida da Família Real para o Brasil e da invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas, sob o comando do General Junot. Em Bayonne encontrava-se em Fevereiro de 1808 a deputação portuguesa enviada por Junot a Napoleão para o cumprimentar e solicitar a redução da contribuição de guerra lançada sobre Portugal presidida por Dom Lourenço de Lima, antigo embaixador em Paris. O marquês de Marialva que havia sido indigitado pelo Senado da Câmara de Lisboa como um dos representantes da nobreza, seguiu de Madrid para Bayonne e, daí para Paris, onde se manteve virtualmente deitdo, até à abdicação do Imperador em 1814.

Em 1814, após a Restauração, a Regência nomeia-o Embaixador a Luís XVIII para felicitar o monarca em nome do Príncipe-Regente D. João pela sua Restauração no trono de França, tendo logo após sido nomeado Embaixador.

O Marquês de Marialva foi sensível aos apelos de J. Lebreton no sentido de enviar ao Brasil aquilo que ficou conhecida como a Missão Artística Francesa que viria a integrar entre outros, Jean-Baptiste Debret[1], Nicolas e August Taunay, Auguste-Henri de Montigny, Charles-Simon Pradier e Zépherin e Marc Ferrez, tendo instado nesse sentido junto do conde da Barca que deu o seu acordo. Também se deveu ao Marquês de Marialva a ida para o Brasil do compositor, pianista e organista austríaco Sigismundo Neukomm, protegido do príncipe Talleyrand, integrado na comitiva do duque de Luxemburgo - Embaixador de Luís XVIII à Corte do Rio de Janeiro, em 1816.

Em 1816, o Príncipe-Regente nomeia-o Embaixador à corte de Viena de Áustria para negociar o casamento do Infante D. Pedro com a Arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo. O fausto com que se desempenhou nesta missão ficou célebre na Europa designadamente, pelo imponente cortejo de 42 carruagens com que deu entrada na capital de Francisco I e pelo grandioso banquete que ofereceu após o consócio por procuração, numa tenda montada para o efeito. Com ouro, diamantes e outras pedras preciosas vindas do Brasil prodigalizou presentes a cortesãos e ao corpo diplomático acreditado em Viena abrindo as portas ao desenlace favorável do casamento pretendido pelo Príncipe Regente D. João. Parte das despesas foram custeadas do seu bolso e nunca reembolsadas.

O Embaixador além da negociação do casamento do Príncipe Real D. Pedro estava ainda mandatato para negociar os casamentos das Infantas D. Isabel Maria e D. Maria Teresa com príncipes da Casa Habsburgo. Para além disso, importava obter o apoio do Império para a questão de Montevideu e da Banda Oriental do Rio da Prata que vinha sendo motivo de conflito com a Espanha.

Após a «revolução» de 1820, a que se opôs frontalmente, acabaria por ser desautorizado por D. João VI e demitido do seu posto de Embaixador. Após, a Vilafrancada, em 1823, viria no entanto, a ser novamente reconduzido como Embaixador em Paris, cargo que ainda ocupava quando faleceu, em Novembro desse ano.

Após a sua morte foram suas herdeiras, suas irmãs - a duquesa de Lafões, a marquesa de Loulé e a marquesa de Louriçal. Não sem que tivesse surgido uma senhora - D. Antónia Adelaide Bonnet que alegava ter sido casada com o marquês e dele ter tido um filho reivindicando por isso a avultada herança. Após várias diligências no sentido de ver reconhecido o alegado casamento junto dos tribunais eclesiásticos, chegando mesmo a ter havido um parecer do Cardeal D. Frei Francisco de S. Luís dirigido a um Ministro de Estado, em 17 de Julho de 1836, segundo Inocêncio Francisco da Silva, o caso não teve seguimento. De sublinhar que os seus restos mortais só foram trasladados para Lisboa cerca de oito meses depois, por razões que se desconhecem.

Parte da sua biblioteca e colecção de mapas e cartas geográficas foi vendida em leilão em Paris em 1827.

Nesta bela e rara gravura aberta água forte e buril por Charles Pradier, o Marquês veste farda de Embaixador e ostenta entre outras, as seguintes insígnias:

  • Banda e placa de Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis, provavelmente de fabrico estrangeiro dada a configuração da cruz (embora também se possa admitir que tal se deveu a imperícia do artista, já que na litografia com o retrato do médico e diplomata - Dr. João Francisco de Oliveira, desenhada por Pradier, a placa da Ordem de Cristo também não está correctamente representada)
  • Placa Grã-Cruz da Ordem de Santo Estêvão da Hungria
  • Cuz de Cavaleiro da Ordem de Malta pendente de fita e,
  • O que julgamos ser a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Cristo pendente de fita (insígnia não oficial de modelo francês, cruz de malta, carregada de um medalhão com cruz de cristo sobreposta ao centro) embora não estejamos certos dada a dificuldade de identificar a insígnia

Pendente do escudo de armas, assente sobre a Cruz da Ordem de Malta, veem-se as insígnias da Ordem de Cristo e da Ordem de Santo Estêvão, da Hungria e uma terceira, não identificada.

Nota:

[1] Debret que viveu no Brasil cerca de 15 anos seria aliás o autor dos desenhos das insígnias da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, fundada por D. João VI para comemorar a sua elevação ao trono em 1818.

Bibliografia:

António Manuel Hespanha, Sob o Signo de Napoleão. A Súplica Constitucional de 1808, in «Almanack Brazilienze, nº 7, Maio de 2008;

M. Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, 4ª ed.: Rio de Janeiro: Topbooks : 2006, Cap. XXII

Luís Norton, A côrte de Portugal no Brasil, 2ª ed. : Companhia Editora Nacional/INL-MEC : 1979

Pedro Soares Martinez, História Diplomática de Portugal : Lisboa : Verbo : 1992

Neill Macaulay, Dom Pedro: The Struggle for Liberty in Brazil and Portugal, Duke University Press (1986)

Gunter Weimer, A Missão que não era, in « Palladio e o Neoclassicismo», Nara Machado , Ivan Mizoguchi (Orgs.), Porto Alegre: Edipurs, 2006

Lilia Moritz Schwarcz, O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (1816-1821) : Companhia das Letras, 2008).

Vasco Mariz, A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI‎ : Rio de Janeiro : Casa da Palavra : 2008, pp. 72 e ss.

Sobre a entrada do Marquês de Marialva em Viena, a 17 de Fevereiro de 1817, cf. «Gazeta do Rio de Janeiro», nº 45, de 4 de Junho de 1817