quarta-feira, 4 de março de 2009

Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824

ORDENS E CONDECORAÇÕES PORTUGUESAS 1793-1824
Paulo Jorge Estrela
Tribuna da História, Lisboa (2009)



Aproveitando a existência deste blog especializado em Falerística, vamos publicar algumas actualizações a este ainda recentemente publicado livro.
Qualquer trabalho de investigação está sujeito a que novas “descobertas” venham complementar (e por vezes até contrariar) o até então apurado e, no caso, o que foi publicado.
Refira-se ainda, que esperamos, estes singelos dados sejam publicados na edição em inglês desta obra, que se encontra em preparação.


Assim, especialmente graças a investigação posterior efectuada no AHM (Arquivo Histórico-Militar), em Lisboa, é-nos possível acrescentar o seguinte:


Capítulo “Divisão de Voluntários Reais de el-Rei – Montevideu (1815-1823)”

Na Relação de agraciados com a Cruz de distinção da campanha de Montevideu 1822-23 (página 268) há a considerar mais um Oficial agraciado com o grau de Cruz de ouro:

D. Miguel Ximenes, Visconde de Pinheiro
[D. Miguel Ximenes Gomes Rodrigues Sandoval de Castro e Viegas]
AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixa 907

Não encontrámos a publicação oficial da concessão mas o teor de um Ofício de 1852, existente no seu processo individual (que comunica uma Resolução Régia), e que aqui transcrevemos, terá servido para implicitamente, legitimar a sua concessão.


Ofício do Comando em Chefe do Exército (1ª Repartição, 1ª Secção), de 1 de Março de 1852, assinado pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, Barão da Luz

«Comunica-se ao Comandante do Corpo de Estado-Maior do Exército que, Sua Majestade a Rainha, tomando em consideração os documentos comprovativos que lhe foram presentes e que evidenciam ter sido o Brigadeiro Visconde de Pinheiro despachado em 22 de Fevereiro de 1822, Alferes Ajudante de um dos Batalhões Cívicos organizados em Montevideu e promovido ao posto de Tenente do mesmo Corpo por distinção em combate e, atendendo a que os referidos batalhões fizeram parte da Divisão de Voluntários Reais de El-Rei enquanto se conservou na Banda Oriental, e a que o mencionado Brigadeiro acompanhou a Divisão no seu regresso a Portugal, prestando posteriormente relevantes e distintos serviços no Exército, pelos quais foi declarado Tenente do mesmo Exército, Houve por bem Resolver que conte o tempo de serviço desde do citado dia 22 de Fevereiro de 1822; e que de ordem de Sua Excelência o marechal Duque de Saldanha, Comandante em chefe do Exército, participo a Vossa Excelência para os devidos efeitos.
Deus guarde a Vossa Excelência
Quartel-general na Rua da Santo Ambrósio, no 1º de Março de 1852»

A gravura anexa é propriedade da Biblioteca Nacional de Portugal, na sua versão de imagem pública digital (http://purl.pt/1009).

A título de curiosidade refira-se que os citados relevantes e distintos serviços no Exército, foram, entre outras formas, distinguidos com a Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, criada em 1832.
Assim, durante a chamada Guerra Civil (1826-1834) e só no ano de 1833, foi agraciado com o grau de Cavaleiro (combates de 5 de Julho, nas Linhas do Porto) e com o grau de Oficial (combates de 18 de Agosto, também nas Linhas do Porto). Um ano depois, em 1834, foi condecorado com o grau de Comendador (acção de Torres Novas, em 25 de Janeiro de 1834 e batalha de Almoster, em 18 de Fevereiro de 1834).





Capítulo “Condecorações Britânicas concedidas a Portugueses 1808-1814)

Na Relação de agraciados com a Military General Service Medal (página 265) há a considerar mais um agraciado português com esta medalha britânica:

Victor Jorge


AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixas 198 / 284 / 322 / 353 / 418 / 466 / 528 / 554 / 665


Até 1813, este súbdito português serviu como Sargento na Cavalaria do Exército Britânico, mais concretamente no regimento 15th (The King’s) Hussars e com o nome de Victor George.
Depois de recomendado pelo Brigadeiro Hardinge ao Marechal Beresford (Comandante-em-chefe do Exército Português) ingressou no Exército Português em 31 de Agosto de 1813, como Alferes de Cavalaria e já com o seu verdadeiro nome: Victor Jorge.
Em meados do século XIX, chegou a Tenente-Coronel desta Arma, e em 26 de Outubro de 1849, com este mesmo posto passou à situação de Reformado, adido à Torre de S. Vicente de Belém.

Pelos seus serviços junto do Exércitos britânico, como sargento de cavalaria, requereu e foi agraciado com a britânica Military General Service Medal com duas passadeiras: Sahagun e Vittoria.

Esta sua concessão é confirmada pela respectiva publicação no livro de referência “The Military General Service Roll 1793-1814”, de A.L.T. Mullen (Londres, 1990)


A Military General Service Medal (com 3 passadeiras) que aqui apresentamos foi concedida a um soldado britânico.





Capítulo “Condecorações Britânicas concedidas a Portugueses 1808-1814)

Neste capítulo, há ainda uma referência especial a :

António Pedro Buys
AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixa 401 [“processo do Buys, pai”]

Este Oficial de Artilharia fez a Campanha do Rossilhão como Praça e depois a Guerra de 1801, e participou ainda em algumas das campanhas da Guerra Peninsular mas não foi agraciado com qualquer das Cruzes de Condecoração então criadas por não preencher os rigorosos critérios de concessão. Mais tarde foi agraciado com o grau de Cavaleiro e depois ainda com o de Comendador da Real Ordem de S. Bento de Aviz, pela sua gradução e tempo de serviço sem reparo, como era habitual.

Em Requerimento de 1855 (arquivado no seu processo individual) passa a intitular-se detentor da Cruz Britânica pela Guerra Peninsular, e mesmo em Listas de Antiguidades de Oficiais de anos posteriores, aparece a mesma referência tipografada.
No entanto, não temos conhecimento de qualquer concessão de uma condecoração britânica a este Oficial (nem entendemos uma possível lógica de critério de concessão tendo em conta o seu serviço durante a Guerra Peninsular) assim como também não encontrámos nada no seu processo individual, pelo que, até referência em contrário, assumimos essa informação como um potencial erro...

6 comentários:

José Manuel Bacelar disse...

Ex.mo Sr. Doutor Paulo Estrela

Após a leitura atenta do seu livro referenciado quero endereçar-lhe as minhas mais sinceras felicitações.
Aproveito, dado estar perante um profundo conhecedor das ordens e condecorações portuguesas, para expor o seguinte:
meu Avô, Capitão José da Luz Brito, esteve na Batalha de La Lis em 9 de Abril de 1918 onde foi condecorado com a Ordem da Torre Espada, grau de Cavaleiro. A condecoração perdeu-se com o passar dos anos e eu gostaria de adquirir uma para sua substituição. Perante este facto e o conhecimento que tem sobre este tipo de condecorações não me saberá informar onde me deverei dirigir para levar a cabo este meu desejo? O meu contacto é jbacelar@gmail.com. Desde já grato pela atenção dispensada. Com os meus melhores cumprimentos. José Manuel Bacelar

Ricardo Coutinho disse...

Exmo. Sr,

Após uma leitura do livro não encontrei informação no mesmo do meu penta-avô, Capitão Manuel Pinto da Cunha. Condecorado com a Medalha da Guerra Peninsular e de Montevideo. Esteve em 1827-32 como Capitão da 2ª Companhia de Veteranos em Viana do Castelo.

Melhores cumprimentos
Ricardo Coutinho

José Vicente de Bragança disse...

Bom dia, reencaminhei o seu post para o autor do livro - Paulo Estrela que certamente o irá esclarecer.
Cumprimentos,
JVB

Paulo Jorge Estrela disse...

Exmo. Sr. Ricardo Coutinho,

Grato pela sua leitura atenta do meu livro e posterior contacto via este blog.
Efectivamente, o seu penta-avô não é referenciado por mim, e se o mesmo foi agraciado pelas duas campanhas referidas, temos que entender o porquê.
Sabe que posto ele tinha quando das mesmas campanhas ? É que, se era Praça (sargento, cadete, etc.) poderá ter sido agraciado com a Cruz de Condecoração da Guerra Peninsular para Praças, e eu somente apresento números e não nomes, e o mesmo acontece para aqueles agraciados com a Estrela (ou Cruz) de prata para a Campanha de Montevideu, já que as relações do Exército apresentadas são somente dos Oficiais (i.e. ouro).
Há muitos exemplos de Praças que fizeram essas campanhas (e outras menores ou que cumpriram serviço no Ultramar: Angola, Moçambique, Estado da Índia) até como graduados, e que nos anos 30s eram já Oficiais, quase nunca de posto superior a capitão, e muitos deles promovidos quando da sua passagem à classe de "veteranos"...
De qualquer maneira, se tiver mais elementos biográfico-militares do seu penta-avô, nomeadamente os postos, a sua Arma, e as unidades por onde passou, poderei apurar mais dados.
Já agora, e porque tal seria muito curioso, tem as duas insígnias que refere, ou sabe delas ?
Atentamente

Ricardo Coutinho disse...

Boa noite Doutor Paulo Estrela,

Agradeço desde já a resposta e peço desculpa peloa atraso da minha.

Quanto a informações poderei dar as que encontrei o AHM.

Passo a citar: Assentou Praça no Regimento de Infantaria no 18 em 3 de Setembro de 1803, passou a 1º Sargento em 8 de Julho de 1815 e a Sargento 2º Mestre em 26 de Novembro de 1822 e a Alferes a 16 de Setembro de 1824.
Não consta da guia quando passou aos postos antecedentes.

Em 1830, quando foi feita esta avaliação era Capitão do Corpo de Veteranos do Minho.

Se me pudesse ajudar agradecia imenso, uma vez que sou uma apaixonado por Genealogia e tenho feito o estudo deste ramo da minha familia.

Este meu penta-avô, era um dos descendentes de Manuel Pinto Coutinho, que segundo estudo do Dr. Alvaro Lobo Alves, era Capitão de Cavalos na Guerra da Aclamação.

Um dos parente deste meu penta-avô era o Tenente-Coronel, Salvador de Albergaria Coutinho da Cunha. Ambos eram descendentes de Manuel Pinto Coutinho.

Uma das perguntas que faço, é que requisitos erão necessários para uma pessoa se alistar no Exército?

Agradeço uma vez mais a ajuda.

Melhores cumprimentos
Ricardo Coutinho

Ricardo Coutinho disse...

Boa noite,

Faço o seguinte aditamento, desse meu penta-avô, somente tenho o Espadim dele, que segundo estudei é um Espadim da Guerra Peninsular. Falta-lhe o fio de prata à volta do punho de madeira (pau-santo).

Quanto às condecorações, penso que infelizmente ou terão sido vendidas pela minha bisavó, quando perdeu toda a fortuna, ou foi enterrado com as mesmas.

Informo também que o filho dele e meu quarto-avô, foi Abade de Frende-Baião e que na Inquirição do mesmo, as testemunhas e o Vigario referen-se a Manuel Pinto da Cunha, não como Capitão que o era na altura, mas como Oficial Militar.

Também é curioso ver que a minha penta-avô e mulher de Manuel Pinto da Cunha, então Alferes em 1824, só adquire o estatudo de Dona, após o casamento.

Melhores cumprimentos
Ricardo Coutinho