quarta-feira, 25 de março de 2009

As Invasões Francesas

No decurso das Invasões Francesas que devastaram o país travaram-se inúmeras acções e batalhas, nas quais se distinguiram numerosos Oficiais, portugueses e aliados, e que motivaram a posterior concessão da Ordem da Torre e Espada, da Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular e da Cruz de Condecoração das Campanhas da Guerra Peninsular, estas últimas criadas expressamente para o efeito.
O Bicentenário tem sido pretexto para múltiplos eventos culturais evocativos.
Pelo seu interesse transcrevemos aqui o documentário de Nunes Forte sobre as Invasões Francesas - Depoimentos do Prof. Veríssimo Serrão, Generais Themudo Barata e Sousa Lucena, Ten. Coronel Pena e Major Fernandes Henriques.








quinta-feira, 19 de março de 2009

1º Conde de Arnoso


General de Brigada Bernardo Pinheiro Correia de Melo
1º Conde de Arnoso

Nasceu na Casa do Proposto, em Guimarães, a 27 de Maio de 1855 e faleceu na Casa de Pindela (S. Tiago da Cruz, V. N. Famalicão), a 21 de Maio de 1911 e era filho secundogénito do 1º Visconde de Pindela - João Machado Pinheiro Corrêa de Melo e, de sua 2ª mulher D. Eulália Estelita de Freitas Rangel de Quadros. Era irmão de Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, 2º visconde de Pindela.
Baptizado com o nome de Bernardo em memória de seu terceiro avô materno, pai do 1º visconde de Azenha, aos 7 anos (1862) vai estudar para Lisboa para o Colégio dos Inglezinhos[1] vivendo em casa dos Condes de Casal Ribeiro[2] amigos da família Pindela.
Cursou Matemáticas na Universidade de Coimbra, completando os seus estudos na Escola Politécnica e na Escola do Exército. Seguiu a carreira militar, na Arma de Engenharia, assentando praça em 7 de Novembro de 1871, promovido a Alferes, em 29 de Dezembro de 1877, a Tenente, em 14 de Janeiro de 1880, a Capitão, em 31 de Outubro de 1884, a Major, em 14 de Novembro de 1901 e a Tenente-Coronel do E.M., na mesma data. Passou à reforma no posto de General de Brigada em 27 de Fevereiro de 1908, logo após o Regicídio.
Entrou ao serviço do Paço como Oficial-Mor da Casa Real e Oficial às Ordens dos Reis D. Luiz I e D. Carlos I.
Casou duas vezes, a 1ª, a 16 de Julho de 1877, em Lisboa, com D. Maria José de Mello Abreu Soares Vasconcelos Brito Barbosa e Palha, n. a 9 de Julho de 1857 , em Lisboa e f. a 10 de Janeiro de 1882, em Lisboa; filha secundogénita dos 3ºs. Condes de Murça - D. José de Melo Abreu Soares de Vasconcelos Brito Barbosa e Palha e, de sua mulher, D. Ana de Sousa Coutinho Monteiro Paym; e a 2ª, em Lisboa, a 28 de Maio de 1890, com D. Matilde Munró dos Anjos, n. a 22 de Maio de 1874, em Lisboa e, f. no Lumiar em 1964, filha do Conselheiro Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos - Par-do-Reino, capitalista e comerciante e, de sua mulher D. Alice Munró, de origem irlandesa. De ambos os casamentos há descendência, sendo seu representante, o autor destas linhas.
Em 1887 foi designado para Secretário da Embaixada Extraordinária à Corte Imperial de Pequim chefiada pelo Conselheiro General Tomás Rosa tendo sido um dos subscritores do Tratado Luso-Chinês , assinado em Dezembro de 1887. No Celeste Império reinava o Imperador Guangxu, da dinastia Qing, sob a tutela de sua tia a toda-poderosa Imperatriz regente Cixi ou Tseu-Hi.
Por entre os afazeres da missão, houve tempo para visitar as termas do Imperador Qianlong, os túmulos Ming e a Grande Muralha e de anotar aspectos da vida pública e privada, as instituições políticas e o governo, usos e costumes, o cerimonial civil e religioso, a vida na Cidade Proibida, a arte, a literatura e a filosofia chinesas e a figura da Imperatriz viúva Cixi, que patrocinou uma política crescentemente conservadora e nacionalista, pondo fim às tentativas de reforma do reinado de seu marido, tentando em vão pôr cobro à cobiça das potências ocidentais.
Dessa longa viagem que o levou ao Egipto, Singapura, Macau, Hong Kong, Xangai, Tien-Tsin, Pequim, Japão e Estados Unidos, deixou-nos um relato das suas impressões, publicado parcialmente na «Revista de Portugal», fundada e dirigida por seu amigo Eça de Queirós (Lisboa, vol.1, Agosto de 1889) e, em volume sob o título «Jornadas pelo Mundo», publicado no Porto, pela Livraria Magalhães & Moniz, em 1895. «Jornadas pelo Mundo» constitui «indiscutivelmente um dos mais importantes testemunhos portugueses escritos sobre a China de finais do século XIX»[3] ou, «num dos mais genuínos livros de viagens à China» na opinião de Manuela Delgado Leão Ramos[4].
A visita ao extremo oriente fascinou Bernardo Pindela e dela trouxe várias peças de arte oriental, porcelanas, estatuária em madeira, e cabaias de seda, a mais famosa das quais foi a oferecida a seu dilecto amigo Eça de Queirós e que hoje se guarda na Fundação Eça de Queirós.


Os «Vencidos da Vida»

Fez parte do célebre grupo os "Vencidos da Vida" que se reuniam em ágapes que deram brado no Braganza e no Tavares ou, em sua casa, na à Lapa[5].
Sendo íntimo e dedicado amigo de Eça de Queirós, após a sua morte, apresentou, em 15 de Março de 1901, um projecto de lei na Câmara dos Pares, destinado a conceder uma pensão á viúva e filhos de Eça de Queiroz fazendo o elogio do escritor, dizendo designadamente:
«Se é certo que o Visconde de Almeida Garrett imprimiu á nossa lingua o sabor de um modernismo, que a revolucionou, escrevendo paginas de uma tal simplicidade, que conservam através do tempo toda a frescura de uma impressão primeira; se Alexandre Herculano nos legou, em paginas lapidares, mais do que uma litteratura, os fortes delineamentos da nossa historia, tão rica de feitos gloriosos; se Camillo Castello Branco deixou, em muitos dos seus livros, exemplos dos primores da nossa lingua, chegando muitos d'elles a attingir a feição clássica; se Oliveira Martins, a exemplo do que Garrett fizera na litteratura, revolucionou a nossa historia imprimindo-lhe, numa linguagem limpida, um forte sabor moderno: Eça de Queiroz, com vocabulario relativamente restricto, deu á lingua portuguesa uma tal maleabilidade que ella póde na sua mão, como a paleta mais rica, dar desde as cores mais quentes e vivas até aos tons mais esbatidos e delicados.»
Promoveu também a realização de um monumento que consagrasse a memória do grande escritor desaparecido - "A VERDADE", esculpida por Teixeira Lopes e, que foi entregue à cidade de Lisboa em 9.XI.1903, na pessoa do então Presidente do Município - o conde de Ávila, tendo o conde de Arnoso evocado em cerimónia pública a memória do escritor e do amigo desaparecido.
Acompanhou D. Carlos I nas suas visitas a França, à Alemanha e a Espanha e fez parte da comitiva oficial na visita de estado à Grã-Bretanha por ocasião dos funerais de S. M. a Rainha Vitória e na visita oficial aos Açores e Madeira. Acompanhou também o Príncipe D. Luís Filipe a Londres para as cerimónias de coroação de Eduardo VII, rei da Grã-Bretanha.
Amigo fidelíssimo de D. Carlos e seu secretário particular desde a sua subida ao trono em1889, acompanhava com frequência el-rei nas suas deslocações a Vila Viçosa e a nas caçadas na Real Tapada de Mafra.
Casa de S. Bernardo, Cascais

Para estar mais perto do monarca durante as estadias da Família Real em Cascais, mandou construir (1894) uma casa de verão de traça tipicamente minhota junto ao mar - Casa de S. Bernardo, que hoje infelizmente já não está na posse da Família.
Em 1895, o rei D. Carlos I no dia do seu aniversário concedeu-lhe o título de Conde de Arnoso, em duas vidas tendo a 2ª vida verificado em seu filho primogénito - o 2º Tenente da Armada Real João Maria Rodrigo Pinheiro de Figueira e Melo, por Decreto de 1904.
Foi nomeado Par-do-Reino por Carta Régia, de 29 de Dezembro de 1900, tendo prestado juramento e tomado assento na Câmara dos Pares na sessão de 6 de Março de 1901.
Após o regicídio, e numa época de profunda crise de valores, política e socialmente conturbada, usou corajosamente a tribuna da Câmara dos Pares do Reino para clamar que fosse feita Justiça ao monarca e ao príncipe D. Luís Filipe assassinados no Terreiro do Paço, reverberando o governo pela complacência demonstrada na punição dos responsáveis pelo crime[6]. Desgostoso com a política e com os homens, retirou-se da vida pública após a proclamação da República, para a sua casa perto de Pindela onde viria a falecer no solar de seus maiores.
Num discurso na Câmara dos Pares proferido a 9 de Maio de 1908, definia-se deste modo: «A politica nunca me seduziu. Convidado, instado ha annos pelo ultimo, prestigioso, mallogrado chefe do partido regenerador, a assumir a gerencia da pasta dos Negocios Estrangeiros, numa situação a que ia presidir, terminantemente recusei tamanha honra, apesar das repetidas e demoradas instancias que me foram feitas».
Passou à história como exemplo de lealdade, de fidelidade e de nobreza de carácter.



Publicou as seguintes obras: "Azulejos", com prefácio de Eça de Queirós, 1886; "De Braço Dado", Lisboa, 1894, em colaboração com seu cunhado o Conde de Sabugosa; “O Talisman” (ilustrado por Casanova), Porto, 1897;"A Primeira Nuvem", Lisboa, 1902, peça de teatro, representada em 1894; a peça "O Suave Milagre", Lisboa, 1902, de colaboração com seu amigo, o diplomata Alberto de Oliveira - adaptação ao teatro do conto de Eça de Queirós, a qual subiu à cena no Teatro D. Maria II, em 28 de Dezembro de 1901, por ocasião da qual, S.M. el-Rei lhe ofereceu uma aguarela da sua autoria representando uma cena da peça; Elogio do Conde de Ficalho, in «Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa», 21.ª série, N.º 5, Maio de 1903; "Vila Viçosa", Separata de "A Arte e a Natureza em Portugal", Porto, 1904 e,"Justiça! - Sessão Parlamentar de 1909 (Discursos), 1ª ed., Lisboa, 1909.

Foto Ana Carla (Abril 1998)

A cidade de Guimarães onde nasceu prestou-lhe uma homenagem por iniciativa do Engº Duarte do Amaral, erguendo-lhe uma estátua, da autoria do escultor Joaquim Correia inaugurada em 1961, por sua filha D. Maria do Carmo, duquesa de Palmela e colocada no Largo da República do Brasil.
O município de Vila Nova de Famalicão, em 1 de Junho de 1995, também lhe prestou uma tocante homenagem colocando um busto em bronze, nos jardins da Biblioteca Municipal, descerrado por sua filha mais nova D. Teresa Pinheiro de Melo Magalhães, em cerimónia a que compareceram vários dos seus netos e bisnetos.
Em 2008, por iniciativa da Real Associação de Lisboa, foi descerrada uma lápide, na Rua do Arsenal em Lisboa, comemorativa do regicídio e, em que se evocou a figura do conde de Arnoso que na época havia sido apelidado pelos seus detractores como o «Conde da Lápide» por exigir a punição dos regicidas e dos seus instigadores e «...que na arcada do Terreiro do Paço, onde o horrendo crime se commetteu, uma lapide de marmore perpetue os nomes das martyrizadas victimas».



Diploma de Oficial da Ordem Militar de S. Bento de Aviz (1902) (BNP)


Possuía, entre outras, as seguintes condecorações: Comendador das Reais Ordens Militares de Aviz e de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa; Grã-Cruz de Affonso XII, do Mérito Militar e de Carlos III e Comendador de Número de Isabel, a Católica, de Espanha (1903); Grande-Oficial da Legião de Honra, de França (1905); Grã-Cruzes da Real Ordem de Victória (1903), da Grã-Bretanha; de São Estanislau, da Rússia; de Alberto de Saxe; de Francisco José, da Áustria; de Mecklemburgo; do Duplo Dragão, 3ª Divisão, 1ª Classe, da China (1887); Comendador da Coroa Real da Prússia (1895) e Cavaleiro de S. Maurício e S. Lázaro, da Itália.


No retrato acima, datado de 1886, veste uniforme militar e ostenta a placa de comendador de número da Ordem de Isabel, a Católica, de Espanha, e a insígnias de cavaleiro das Ordens de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Ordem de S. Maurício e S. Lázaro, de Itália.

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Notas
[1] Cf. Luís de Oliveira Guimarães, O Conde de Arnoso, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1958 e Debrett's Peerage, Baronetage and Knightage, 1904 Printed by Dean & Son, London, 1904. O Prof. Amadeu Carvalho Homem (O Primeiro Conde de Arnoso e o seu tempo) e meu primo João Afonso Machado (O Morgadio de Pindela) referem por seu turno o Colégio Luso-Brasileiro, em Lisboa, à Rua de S. Felipe Néri.
[2] Foi 1º Conde de Casal Ribeiro - José M.ª Caldeira do Casal Ribeiro (1825-1896), dedicou-se ao jornalismo fundando em Lisboa o jornal A Civilização. Partidário da Regeneração foi eleito deputado em 1850, foi Ministro da Fazenda em 1859, e, em 1860, dos Negócios Estrangeiros e, mais tarde, das Obras Públicas. O Marquês de Loulé nomeou-o Ministro em Paris cargo em que se manteve até 19-5-1870. Desempenhou o cargo de Ministro em Madrid no qual viria a morrer. Foi casado com D. M.ª da Conceição Quintela Emauz. Foi Conselheiro de Estado efectivo, Par-do-Reino (1865), sócio da Academia Real das Ciências e da Academia de História de Madrid. Seu filho varão primogénito, José Frederico do Casal Ribeiro que, nasceu em Lisboa, em 28 de Abril de 1851 e, morreu em 31 de Julho de 1907, foi educado com o Conde de Arnoso.
[3] Os Portugueses e o Oriente: Sião, China, Japão (1840-1940): Mostra bibliográfica, 4 de novembro de 2004 - 29 de Janeiro de 2005. - Lisboa: BN, 2004, p. 89
[4] Manuela Delgado Leão Ramos, António Feijó e Camilo Pessanha no Panorama do Orientalismo Português, Lisboa, Fundação Oriente, 2001
[5] Em carta de Salamanca e Paris, de 1899, dirigida ao Conde de Arnoso, Eça de Queirós referia-se assim a um desses repastos: «Essa adorável casa de S. Domingos à Lapa, apesar do seu santo nome, era a diabólica Ilha dos Lotófagos, onde, depois de comer a flor de Loto (ponhamos o bacalhau assado) a gente tudo esquecia envolta em beatitude. Em torno de mim boiavam Sereias».
[6] Cf. M. Castro Henriques, O Culto dos Regicidas

Bibliografia:
Alberto Pereira d'Almeida, Álbum dos Vencidos, ed. do Autor, Lisboa, 1912-1914, artigo sobre o Conde de Arnoso, pp. 30-36. Alfredo Gomes Dias, Conde De Arnoso: Diplomata e Orientalista, Comunicação, na integrada no Ciclo de Conferências promovido pela Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, Gentes da Terra, V. N. de Famalicão (Casa Pindela, 13 de Maio de 2005) Amadeu Carvalho Homem, O Primeiro Conde de Arnoso e o seu tempo, V. N. de Famalicão, Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 1998 António Rodrigues Cavalheiro, Cartas de Mouzinho de Albuquerque ao Conde de Arnoso, prefácio, Lisboa, 1957; reproduzido sob o título «Três Grandes Sombras», in "Política e História", Livraria Sam Carlos, Lisboa 1960; Augusto de Castro, O Conde de Arnoso, conferência na Sociedade Martins Sarmento em 29 de Abril de 1961, sep. da «Revista de Guimarães», vol. LXXI, nos. 1-2, Guimarães, 1961; Caetano Alberto, O Monumento a Eça de Queirós, in «Almanach Illustrado do Occidente para 1905», pp. 58-59, cit. por João Medina, ob. cit. pp. XXVII Carlos Pinto dos Santos & Orlando Neves, De longe à China: Macau na historiografia e na literatura portuguesas, Instituto Cultural de Macau, 1996 Eça de Queirós, - Correspondência, leit., pref. e notas de Guilherme de Castilho. Lisboa: IN-CM, 1983 Eça de Queiroz, Correspondência, organização e notas de A. Campos Matos (2 volumes, ed. Caminho, 2008) Eugênio de Andrea da Cunha e Freitas, O Conselheiro Camelo Lampreia, Diplomata, um Espólio Valioso, in Actas do Colóquio «A Diplomacia na História de Portugal», Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1990, pp. 311-332 F. A. de Oliveira Martins, D. Carlos I e os «Vencidos da Vida», Parceria Antº M.ª Pereira, 2ª ed., Lisboa, 1942 Jaime Lopes Dias, Cartas do Conde de Arnoso, in «Estudos de Castelo Branco», nº 10, 1963, pp. 72-82
João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos – A correspondência (1886-1916) entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó, Linda-a-Velha, DG Edições, 2007 João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, Ed. do Autor, 1999, pp. 121-132 Júlio de Sousa e Costa, O Rei D. Carlos I - Factos Inéditos do seu tempo (1863-1908), Livraria Bertrand, Lisboa, 1943 Luís de Oliveira Guimarães, O Conde de Arnoso, Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1958; Luiz Vieira de Castro, D. Carlos I, (Elementos de história diplomática), 2ª ed. Lisboa, Ed. Império, 1941; Manuel Teixeira, Macau visto pelo Conde de Arnoso, in "Revista de Cultura", Macau, 2 (7-8) Out. 1988-Mar. 1989, p. 63-78 Manuel da Silva Gaio & Joaquim de Carvalho, Os vencidos da vida, Imprensa da Universidade, 1931 Maria Filomena Mónica, Eça de Queiroz, Lisboa, Quetzal Editores, 2001, Maria José Marinho, Espólio do Conde de Arnoso [BN Esp. 32]: inventário. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005 Os Vencidos da Vida - Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Carlos Lobo d’Ávila & Outros, Lisboa -Fronteira do Caos, 2006 Raquel Henriques da Silva, Cascais, Editorial Presença, Lisboa, 1988 Ricardo A. Alves, Eça e os Vencidos da Vida em Cascais, Câmara Municipal, 1988 Rui Ramos, D. Carlos, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006 Rui Ramos, A Segunda Fundação (1890-1926), in «História de Portugal» dir. por José Mattoso, Vol. VI, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, com destaque para «A Vida Nova» pp. 125-299 Rui Ramos, João Franco: uma educação liberal (1884-1897), in «Análise Social», vol XXXVI, /160’), 2001, pp. 735-766 VVAA, Conversas no Turf em torno de Os Vencidos da Vida, Lisboa, Tribuna da História, 2008

terça-feira, 10 de março de 2009

D. Pedro, duque de Bragança (1831-1834) Revisto

SMI o Snr. D. Pedro, Duque de Bragança [BNP - PURL 4230/1]


Nesta gravura, o ex-Imperador Dom Pedro I, ora titulado de Duque de Bragança, surge representado com a Banda e Placa de Grã-Cruz da Ordem Imperial do Cruzeiro, por ele instituída, em 1 de Dezembro de 1822 para assinalar a sua Aclamação e Coroação como Imperador do Brasil e aludindo à posição geográfica do Brasil, sob a Constelação do Cruzeiro.
A gravura deve ser de data posterior à sua abdicação da coroa Imperial do Brasil (7.04.1831) mas, anterior a 28 de Julho de 1832 – data do decreto de D. Pedro, pelo qual se «reformou» a Ordem da Torre e Espada.
Descrição da placa:
Anverso – Estrela de cinco raios bifurcados, de prata, assente sobre grinalda de ramos de café e fumo, carregada ao centro de um medalhão redondo, azul-celeste, carregado de uma cruz latina formada por dezanove estrelas, de prata, o todo circundado por orla, azul-ferrete, com a legenda "Benemeritium Praemium". O todo encimado por uma coroa imperial.
Reverso – Igual ao anverso, com alteração no medalhão para a efígie de D. Pedro I, e na legenda para "Petrus I – Brasiliae Imperator D".
A cor da banda e fita: azul-celeste.

S. M. I. O Senhor D. Pedro Duque de Bragança
Litografia de Maurício José do Carmo Sendim – [BNP - PURL 4224/1]

Nesta outra gravura certamente de Setembro de 1834, pouco antes de falecer, o ora Duque de Bragança é representado com a insígnia da Ordem do Tosão de Ouro (1801), a Banda e o Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por si «reformada» e com a banda e placa de Grã-Cruz da Ordem Imperial do Cruzeiro. A grã-cruz da ordem da Torre e Espada foi-lhe imposta pela rainha D. Maria II em Setembro de 1834.
Trata-se portanto de uma das primeiras representações iconográficas de insígnias da Ordem da Torre e Espada reformada por D. Pedro em 1832. Ignora-se a origem deste belo colar e onde e por quem terá sido fabricado, podendo porém admitir-se que tivesse sido executado em França, na Inglaterra ou até no Brasil.

Em ambas as gravuras, tendo abdicado das coroas de Portugal e do Brasil, D. Pedro deixou de usar insígnias de ordens portuguesas e as das restantes ordens Imperiais brasileiras.

Há no entanto iconografia mais tardia que o representa também usando a Banda e Placa das Três Ordens, vg. retrato a óleo de João Baptista Ribeiro, no Palácio Nacional de Queluz ou a litografia de Serrano, datada de 1866, na colecção da Biblioteca Nacional de Portugal. Facto de estranhar - e que se deve apenas a propaganda política - já que, D. Pedro só poderia porventura ter usado aquelas insígnias no curtíssimo espaço de tempo em que foi considerado rei de Portugal, com o título de D. Pedro IV - desde 26 de Abril de 1826 até à sua abdicação, em Maio de 1926.

Dom Pedro (12.10.1798 — 24.09.1834) - (I) Imperador do Brasil (12.10.1822 – 07.04.1831)

(IV) Rei de Portugal (26 de Abril - 2 de Maio de 1826)


Filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha de Carlos IV rei de Espanha. Infante de Portugal, Grão-Prior do Crato, da ordem de Malta, Príncipe da Beira (1801), Príncipe do Reino Unido de Portugal do Brasil e Algarves e Príncipe Regente do Reino do Brasil (1821).
Com a declaração da independência do Brasil foi aclamado Imperador, com o título de D. Pedro I, em 12 de Outubro de 1822. Em 1826 após a morte de seu pai foi reconhecido pela Regência como sucessor da Coroa que lhe enviou uma deputação presidida pelo duque de Lafões. Aceitando a coroa em 26 de Abril de 1826, D. Pedro I decidiu outorgar uma Carta Constitucional à Nação Portuguesa e abdicou da coroa em sua filha D. Maria da Glória, na condição da Carta ser aceite e de seu irmão o Infante D. Miguel casar com a jovem rainha e ficar Regente.
Com a morte de D. João VI abriu-se em Portugal uma questão dinástica com fortes contornos político-ideológicos que dividiu os portugueses entre os partidários de D. Pedro (liberais) e os da legitimidade do Infante D. Miguel (apostólicos ou miguelistas) e que conduziria à Guerra Civil de 1832-1834. Se, sob o ponto de vista jurídico, os direitos de D. Pedro I, Imperador do Brasil, à sucessão da Coroa, eram discutíveis por ter sido o obreiro da independência do Brasil e se ter tornado soberano de outro país e por não caber ao rei nomear sucessor sem a aprovação das Cortes, não é menos certo que, estava em causa acima de tudo, o modelo de governo a adoptar – o absoluto ou o liberal e constitucional. O primeiro era o apoiado pelas potências da Santa Aliança e o segundo, pela Inglaterra e pelas correntes que em Espanha e em Portugal tinham promovido «revoluções liberais» em 1812 e em 1820.
Tendo sido forçado a abdicar da coroa Imperial em seu filho D. Pedro, em Abril de 1831, D. Pedro decidiu rumar á Europa para assumir o comando da luta pelos direitos de sua filha, que haviam sido «usurpados» por D. Miguel em 1828 ao faltar ao seu juramento e se ter proclamado rei absoluto com o apoio das Cortes. Em 1832 aporta aos Açores onde se auto-proclama Regente, sob o título de Duque de Bragança e nomeia um governo constituído por Mouzinho da Silveira, Marquês de Palmela e Agostinho José Freire preparando uma força expedicionária para invadir Portugal contando com a benevolência da França Orléanista e da Inglaterra, onde o Duque de Wellington havia já abandonado o poder no ano anterior.
Em 8 de Julho de 1832 uma força constituída por voluntários, na sua maioria liberais exilados políticos que haviam fugido à repressão encetada pelos governos de D. Miguel a partir de 1826 e por mercenários recrutados na Inglaterra, Bélgica e Alemanha desembarcou na praia do Pampelido dirigindo-se ao Porto que ocupam.
Inicia-se a guerra civil que, com altos e baixos para as forças liberais duraria até Maio de 1834, com a assinatura da Convenção de Évora-Monte, que levou D. Miguel ao exílio e ao desmembramento do exército realista. Decisiva foi a mudança da política europeia em Abril desse ano, com a decisão da Quádrupla Aliança de intervir militarmente contra o governo de D. Miguel I e o consequente envio de tropas Britânicas e de tropas espanholas para Portugal.
Após a Convenção de Évora-Monte, D. Pedro morre desiludido em Setembro de 1834.
Sua filha a rainha D. Maria II atribui-lhe o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Foi assim dos poucos galardoados com as duas ordens, já que era também, desde 1808, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada fundada por seu pai, o então Príncipe-Regente D. João.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Jornadas na Lousã sobre Invasões Francesas

A Câmara Municipal da Lousã tem vindo a promover várias actividades culturais no âmbito das «I Jornadas - As Invasões Francesas e a Península Ibérica: a Europa e o dealbar do século XIX»:

  • Exposição "Literatura das Invasões Francesas", Biblioteca Municipal da Lousã, até dia 6 de Março
  • Exposição cartográfica "Portugal em vésperas das Invasões Francesas - Conhecimento Geográfico e Configurações, Biblioteca Municipal da Lousã, dias 10-31 de Março. Apoios: Comissão Coordenadora do Exército para as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular / Instituto Geográfico do Exército (IGeoE)
  • I JORNADAS na LOUSÃ - As Invasões Francesas e a Península Ibérica: A Europa e o dealbar do séc. XIX
    27 Março 2009

    200 Anos de Invasões Francesas assinalados na Lousã

    Apoios: Universidade de Coimbra / Faculdade de Letras; Comissão Coordenadora do Exército para as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular.

sábado, 7 de março de 2009

Tenente-Coronel Sir Robert John HARVEY, Cav. TE, Com. A, Med. Com. GP (10), Cruz Cond. GP (5)



Major-General Sir Robert John HARVEY, CB, KTS, FRS, FAS (1785-1860)
Mousehold House, Norwich



Era filho de John Harvey, Esq, de Thorpe Lodge, Norfolk e de Frances Kerrinson, filha de Sir Roger Kerrinson, de Brooke House. Em 1815 casou com a sua parente Charlotte Mary, filha de Robert Harvey, Esq., de Watton. Foi um dos Oficiais Ingleses que se distinguiu ao serviço do Exército Português durante as Campanhas da Guerra Peninsular.
Em Março de 1809 integrou a força expedicionária que foi enviada para Portugal sob o comando do Major-General Lord Hill, sendo Capitão do 53º Regimento de Infantaria. Um ano depois foi promovido a Major e nomeado Adjunto do Quartel-Mestre-General do Exército Português agregado ao quartel-general do Comandante-em-Chefe do Exército, o Marechal William Carr Beresford.
Em 1811, o Marechal Beresford destacou o Major Harvey para o Quartel-General do Marechal Lord Wellington - Comandante-em-Chefe do Exército Aliado, como oficial de ligação com as tropas Portuguesas no terreno e nomeou-o Chefe-do-Estado-Maior do Exército na sua ausência, cargos que exerceu até ao final da Guerra em 1814[1].
Destacou-se particularmente na organização de 9 corpos de guerrilha[2] e das Ordenanças e na montagem de um serviço de informações devido às suas notáveis capacidades linguísticas e ao perfeito domínio do Francês e do Alemão.
Participou, nomeadamente, nas seguintes acções ou batalhas: Porto, Buçaco, Salamanca, Vitoria, Pirinéus, Nive, Nivelle, Orthez e Toulouse e nos cercos de Ciudad Rodrigo, Burgos, Badajoz e San Sebastian. Após a captura de Badajoz, em Abril de 1812, Harvey foi promovido a Tenente-Coronel do Exército Português e, após as batalhas de Salamanca e de Vitoria, sob recomendação do marechal Lord Wellington, foi também promovido a Tenente-Coronel no Exército Britânico,
Pelos seus brilhantes e destacados serviços na Guerra Peninsular, o Príncipe-Regente D. João conferiu-lhe em 17 de Dezembro de 1815, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada[3].
Em 1820, foram-lhe também concedidas por D. João VI, a hoje rara, Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular (10), [Buçaco / Ciudad Rodrigo / Badajoz / Salamanca / Vitoria / Pirinéus / Nivelle / Nive / Orthez / Toulouse] e, a Cruz de Condecoração da Guerra Peninsular para Oficiais, de Ouro (5 campanhas) (O.D. 31 / 1820)[4].
Em data que se ignora, mas certamente posterior a 1826, o Major-General Sir Robert John Harvey foi também agraciado com o grau de comendador da Ordem Militar de Avis.
Jorge - Príncipe-Regente da Grã-Bretanha, não só lhe concedeu autorização para usar a Torre e Espada, por Alvará, de Maio de 1816, como o nobilitou, concedendo-lhe o título de cavaleiro em 6 de Fevereiro de 1817[5], a que acresceu a concessão da Ordem do Banho, no grau de Companheiro, em 1831.
Promovido a Coronel em Julho de 1830, a Major-General, em Novembro de 1841, e a Tenente-General em Novembro de 1851.

Existe um retrato - em gravura aberta a buril por Charles King, segundo um pintura de T. Stewardson Esqr, datada de 1821) - no qual Sir Robert John Harvey exibe orgulhosamente as suas condecorações Portuguesas – a insígnia de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Medalha de Comando das Campanhas da Guerra Peninsular (10) e a Cruz de Condecoração da Guerra Peninsular para Oficiais, de Ouro, bem como a Britânica Army Gold Medal (Orthez). A insígnia da Ordem de Avis não figura neste retrato o que prova que à data ainda não a tinha recebido.

Sir Robert John Harvey usou também dois ex-líbris heráldicos nos quais ostentou as suas condecorações, mormente a ordem da Torre e Espada.

O primeiro (v. ilust.) [6] com armas de Harvey, de Thorpe, com um escudete sobreposto com as armas de Harvey, com vários acrescentamentos honrosos: chefe, de vermelho, carregado da Army Gold Medal (Orthez) entre dois crescentes, de prata; e, um cantão, de arminho, carregado da insígnia de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada[7]. Pendente do escudo, também a insígnia da Ordem da Torre e Espada o que ocorre raramente em armas Britânicas, demonstrando o alto apreço em que Sir Robert John Harvey tinha esta distinção.
Sir Robert J. Harvey possuiu outro ex-líbris heráldico de confecção mais modesta, em stencil, em que já figura a insígnia de comendador da Ordem Militar de Avis pendente do escudo[8].
As condecorações do Major-General Sir Robert J. Harvey dispersaram-se, vendidas em leilões, nomeadamente da Christie, em 24.04.1992 e da Spink, em 25.09.2001, segundo amável informação de Paulo Estrela.

Agradeço ao Paulo Estrela o valioso apoio na identificação das condecorações da Guerra Peninsular que figuram no retrato de Sir Robert J. Harvey.
_____________
[1] Para detalhes da sua carreira militar cf. o Obituário publicado no «The Gentleman's Magazine», London, 1860, pp. 191-193
[2] H G Hart, Hart's Annual Army List, Militia List, and Imperial Yeomanry List, J. Murray, 1845, p. 26
[3] Paulo Estrela, Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa, Tribuna da História, 2009, p. 232
[4] ibidem, pp. 239 e 242
[5] Francis Townsend, Calendar of Knights: Containing Lists of Knights Bachelors, British Knights of Foreign Orders ..., W. Pickering, 1828, pp. 30 and 92
[6] cf. Frank's Collection Catalogue, # 14013, vol. 2, p. 29
[7] John Burke & John Bernard Burke, The Knightage of Great Britain and Ireland, London, 1841, pp. 169-170 e Burke's Genealogical and Heraldic History of the Landed Gentry, Vol 1, London, Henry Colburn, 1847, p. 544
[8] John Blatchly, Elegant Economy: the stencilled ex-libris, in «The Bookplate Journal», Vol. 4, #1, March 2006, p.37, referindo a Ordem de Avis, see, Hart’s, op. e loc, cit., p. 471

sexta-feira, 6 de março de 2009

2º Visconde de Pindela (1852-1922)

Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada
2º Visconde de Pindela

(Guimarães, 23.IV.1852 – Pindela, 14.IV.1922)

Senhor da Casa de Pindela, Par do Reino, Bacharel em Direito, político, diplomata, genealogista e escritor.
Filho primogénito de João Machado Pinheiro Correia de Melo, 1º visconde de Pindela e de sua 2ª mulher, D. Eulália Estelita de Freitas Rangel de Quadros
Casou em Lisboa, a 23 de Maio de 1889, com D. Maria Amália de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, n. 28.12.1855 e f. 14.04.1918, filha do 2º Conde de Vila Real e senhor do Morgado de Mateus e de sua mulher D. Júlia Braamcamp de Almeida Castelo-Branco.
Em 1879 concluiu a formatura em Direito na Universidade de Coimbra e, em Novembro, foi nomeado Governador de S. Tomé e Príncipe pelo governo progressista de Anselmo José Braamcamp, cargo que exerceria até final de 1881, já com Fontes Pereira de Melo na presidência do Ministério e Melo Gouveia, na pasta da Marinha e Ultramar.
Nas eleições de 29 de Junho de 1884, ganhas pelos regeneradores é eleito deputado pelo círculo de Braga para a 25ª legislatura.
Em Fevereiro de 1886 chega ao poder o novo líder dos progressistas José Luciano de Castro que preside ao Governo, com Henrique Barros Gomes na pasta dos Estrangeiros. O governo nomeia-o então Ministro Plenipotenciário, em Haia. No mesmo ano, Dom Luís I por decreto de 20 de Maio e carta de 8 de Julho concede ao visconde de Pindela uma segunda vida no título, na pessoa de seu filho Vicente Pinheiro Machado.
Em 1893 é transferido para Berlim como Ministro Plenipotenciário, cargo em que se mantém até à implantação da República em 1910, período em que se sucederam 5 governos até ao Regicídio e 6 em apenas cerca de dois anos e meio, no reinado de D. Manuel II.
Em 1895 participa na organização da viagem do rei D. Carlos I à Alemanha, visita que seria retribuída pelo Kaiser Guilherme II, em 1905. Pela sua colaboração na negociação e assinatura do acordo Luso-Alemão de comércio, D. Carlos I confere-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em 1902.

Embora residindo no estrangeiro entre 1886-1910, apenas com algumas vindas a Portugal para férias, idealizou e levou a cabo a modernização da Casa de Pindela, fundada por seus avoengos, aumentando-a, designadamente com uma torre de sabor medieval, embelezando-a com tectos em castanho, fogões de sala, painéis de azulejo e introduzindo comodidades modernas, obras que se iniciaram por volta de 1890 e que decorreram durante quase duas décadas.
Na Casa de Pindela recebeu grandes personalidades da cultura, da política e da diplomacia da época, destacando-se alguns dos ilustres membros do grupo dos «Vencidos da Vida», como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e o Conde de Ficalho. Seu amigo, o poeta e diplomata António Feijó foi um dos assíduos visitantes de Pindela[1]
Grande coleccionador de armaria reuniu um importante acervo de armas brancas e de fogo e de armaduras dos séculos XV-XIX, portuguesas e estrangeiras. Parte da colecção de armas brancas viria a ser vendida ao Estado e encontra-se hoje exposta no Paço Ducal de Guimarães[2]. Notável também a sua colecção de gravuras a talhe doce que vieram embelezar Pindela após se ter retirado da vida diplomática e política.
Foi também um apaixonado pela Caça, desporto que praticava com entusiasmo acompanhado de célebres matilhas de cães das raças Galgo e Podengo, que criava e seleccionava para o efeito.

No retrato acima, datado de 1904, em Berlim, o 2º Visconde de Pindela veste farda de Embaixador e ostenta as seguintes condecorações:
o Banda e placa de Grã-Cruz da Ordem de Cristo (1895)
o Placa de Comendador
da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1880)
o Placa de
Grã-Cruz da Ordem da Coroa da Prússia
o Placa de Grã-Cruz da Ordem da
Coroa
de Ferro, do Império Austro-Húngaro
o Placa de Grã-Cruz da Ordem
da Casa
Ducal de Saxe-Ernestina
o Placa de Grã-Cruz da Ordem de Alberto,
do reino de
Saxe
o Placa de Comendador da Ordem de Casa de Hohenzollern,
da Prússia
o Uma das placas encontra-se oculta pela banda, mas pensamos
poder tratar-se da placa de Grã-Cruz Ordem do Leão, dos Países-Baixos.
Após esta data, o 2º visconde de Pindela ainda foi agraciado com o grau de Cavaleiro, 1ª classe da Ordem da Águia Vermelha do Império Alemão, por ocasião da visita a Lisboa do Kaiser Guilherme II, em 1905, com a comenda da Ordem da Estrela Polar, da Suécia e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Naval, de Espanha. Não conseguimos porém confirmar a outorga da ordem da Águia Negra, do Império Alemão
Após a proclamação da República retirou-se da vida pública e retirou-se para a sua Casa de Pindela, situada cerca de Vila Nova de Famalicão.
______________
Publicou:
Vicente Pinheiro Lobo Machado de Mello e Almada, As ilhas de S. Thomé e Príncipe (notas de uma administração colonial), Lisboa : Typographia de Academia Real das Sciências, 1884
__________, Administração Colonial, Lisboa, 1885;
_________, Discussão do Acto Geral da Conferência de Berlim — Política Colonial [Discurso], Lisboa, 1885.
__________, Árvores genealógicas dos Senhores de Pindella, Braga, 1869.
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Bibliografia:
João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, ed. do Autor, 1999, capítulo XIV
Notas:
[1] Cf. João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos – A correspondência (1886-1916) entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó, Linda-a-Velha, DG Edições, 2007
[2] Alfredo Guimarães, As armas brancas do solar de Pindela, Porto, Instituto para a Alta Cultura, 1946

quinta-feira, 5 de março de 2009

6º Marquês de Marialva [Revisto]

Gravura de C. S. Pradier segundo pintura de J. Madrazo y Agudo (1819 ?)

D. Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1774 - 1823)
8º conde de Cantanhede; 6º Marquês de Marialva

Gentil Homem da Câmara da rainha D. Maria I, Estribeiro-Mor, Brigadeiro e diplomata.
Filho de D. Diogo José Vito de Meneses Noronha Coutinho (1739-1803), 7º conde de Cantanhede e 5.º marquês de Marialva alistou-se como cadete em Outubro de 1786, no Regimento de Cavalaria de Alcântara, de que o seu pai era coronel e que já havia sido comandado por seu avô e bisavô, os 4º e 3º marqueses de Marialva.
Segundo Manuel Amaral, «... em 1796 foi nomeado ajudante de ordens de seu cunhado o Duque de Lafões e em 1801 foi promovido a coronel e nomeado comandante do Regimento de Cavalaria de Mecklemburgo. Comandou o regimento quando este saiu de Lisboa, dirigindo-se com parte da guarnição de Lisboa, e a Brigada de Emigrados franceses a soldo da Grã-Bretanha, em reforço do exército do Alentejo que recuava para o Gavião, perto de Abrantes.... Em Setembro de 1802 foi nomeado Director do Arquivo Militar para a conservação das Cartas militares, geográficas e marítimas, função que manteve até à chegada do exército francês de ocupação, comandado por Junot» (cf.
http://www.arqnet.pt/exercito/marialva.html).

Em Novembro de 1807, no mesmo dia em que chega ao Tejo a esquadra Inglesa sob o comando do Vice-Almirante Sidney Smith, o Marquês de Marialva partiu para França, enviado pelo Príncipe-Regente D. João, por sugestão de António de Araújo e Azevedo, como Embaixador ao Imperador Napoleão I, levando consigo valiosos diamantes como presente e tendo como missão o de convencer o Imperador a desistir dos seus projectos em relação a Portugal bem como a negociar o casamento do Príncipe da Beira com uma sobrinha de Napoleão, filha do Grão-Duque de Berg, General Murat. No entanto, os acontecimentos precipitaram-se e Marialva ainda em Madrid, em finais de Novembro, sabe da partida da Família Real para o Brasil e da invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas, sob o comando do General Junot. Em Bayonne encontrava-se em Fevereiro de 1808 a deputação portuguesa enviada por Junot a Napoleão para o cumprimentar e solicitar a redução da contribuição de guerra lançada sobre Portugal presidida por Dom Lourenço de Lima, antigo embaixador em Paris. O marquês de Marialva que havia sido indigitado pelo Senado da Câmara de Lisboa como um dos representantes da nobreza, seguiu de Madrid para Bayonne e, daí para Paris, onde se manteve virtualmente deitdo, até à abdicação do Imperador em 1814.

Em 1814, após a Restauração, a Regência nomeia-o Embaixador a Luís XVIII para felicitar o monarca em nome do Príncipe-Regente D. João pela sua Restauração no trono de França, tendo logo após sido nomeado Embaixador.

O Marquês de Marialva foi sensível aos apelos de J. Lebreton no sentido de enviar ao Brasil aquilo que ficou conhecida como a Missão Artística Francesa que viria a integrar entre outros, Jean-Baptiste Debret[1], Nicolas e August Taunay, Auguste-Henri de Montigny, Charles-Simon Pradier e Zépherin e Marc Ferrez, tendo instado nesse sentido junto do conde da Barca que deu o seu acordo. Também se deveu ao Marquês de Marialva a ida para o Brasil do compositor, pianista e organista austríaco Sigismundo Neukomm, protegido do príncipe Talleyrand, integrado na comitiva do duque de Luxemburgo - Embaixador de Luís XVIII à Corte do Rio de Janeiro, em 1816.

Em 1816, o Príncipe-Regente nomeia-o Embaixador à corte de Viena de Áustria para negociar o casamento do Infante D. Pedro com a Arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo. O fausto com que se desempenhou nesta missão ficou célebre na Europa designadamente, pelo imponente cortejo de 42 carruagens com que deu entrada na capital de Francisco I e pelo grandioso banquete que ofereceu após o consócio por procuração, numa tenda montada para o efeito. Com ouro, diamantes e outras pedras preciosas vindas do Brasil prodigalizou presentes a cortesãos e ao corpo diplomático acreditado em Viena abrindo as portas ao desenlace favorável do casamento pretendido pelo Príncipe Regente D. João. Parte das despesas foram custeadas do seu bolso e nunca reembolsadas.

O Embaixador além da negociação do casamento do Príncipe Real D. Pedro estava ainda mandatato para negociar os casamentos das Infantas D. Isabel Maria e D. Maria Teresa com príncipes da Casa Habsburgo. Para além disso, importava obter o apoio do Império para a questão de Montevideu e da Banda Oriental do Rio da Prata que vinha sendo motivo de conflito com a Espanha.

Após a «revolução» de 1820, a que se opôs frontalmente, acabaria por ser desautorizado por D. João VI e demitido do seu posto de Embaixador. Após, a Vilafrancada, em 1823, viria no entanto, a ser novamente reconduzido como Embaixador em Paris, cargo que ainda ocupava quando faleceu, em Novembro desse ano.

Após a sua morte foram suas herdeiras, suas irmãs - a duquesa de Lafões, a marquesa de Loulé e a marquesa de Louriçal. Não sem que tivesse surgido uma senhora - D. Antónia Adelaide Bonnet que alegava ter sido casada com o marquês e dele ter tido um filho reivindicando por isso a avultada herança. Após várias diligências no sentido de ver reconhecido o alegado casamento junto dos tribunais eclesiásticos, chegando mesmo a ter havido um parecer do Cardeal D. Frei Francisco de S. Luís dirigido a um Ministro de Estado, em 17 de Julho de 1836, segundo Inocêncio Francisco da Silva, o caso não teve seguimento. De sublinhar que os seus restos mortais só foram trasladados para Lisboa cerca de oito meses depois, por razões que se desconhecem.

Parte da sua biblioteca e colecção de mapas e cartas geográficas foi vendida em leilão em Paris em 1827.

Nesta bela e rara gravura aberta água forte e buril por Charles Pradier, o Marquês veste farda de Embaixador e ostenta entre outras, as seguintes insígnias:

  • Banda e placa de Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis, provavelmente de fabrico estrangeiro dada a configuração da cruz (embora também se possa admitir que tal se deveu a imperícia do artista, já que na litografia com o retrato do médico e diplomata - Dr. João Francisco de Oliveira, desenhada por Pradier, a placa da Ordem de Cristo também não está correctamente representada)
  • Placa Grã-Cruz da Ordem de Santo Estêvão da Hungria
  • Cuz de Cavaleiro da Ordem de Malta pendente de fita e,
  • O que julgamos ser a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Cristo pendente de fita (insígnia não oficial de modelo francês, cruz de malta, carregada de um medalhão com cruz de cristo sobreposta ao centro) embora não estejamos certos dada a dificuldade de identificar a insígnia

Pendente do escudo de armas, assente sobre a Cruz da Ordem de Malta, veem-se as insígnias da Ordem de Cristo e da Ordem de Santo Estêvão, da Hungria e uma terceira, não identificada.

Nota:

[1] Debret que viveu no Brasil cerca de 15 anos seria aliás o autor dos desenhos das insígnias da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, fundada por D. João VI para comemorar a sua elevação ao trono em 1818.

Bibliografia:

António Manuel Hespanha, Sob o Signo de Napoleão. A Súplica Constitucional de 1808, in «Almanack Brazilienze, nº 7, Maio de 2008;

M. Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, 4ª ed.: Rio de Janeiro: Topbooks : 2006, Cap. XXII

Luís Norton, A côrte de Portugal no Brasil, 2ª ed. : Companhia Editora Nacional/INL-MEC : 1979

Pedro Soares Martinez, História Diplomática de Portugal : Lisboa : Verbo : 1992

Neill Macaulay, Dom Pedro: The Struggle for Liberty in Brazil and Portugal, Duke University Press (1986)

Gunter Weimer, A Missão que não era, in « Palladio e o Neoclassicismo», Nara Machado , Ivan Mizoguchi (Orgs.), Porto Alegre: Edipurs, 2006

Lilia Moritz Schwarcz, O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (1816-1821) : Companhia das Letras, 2008).

Vasco Mariz, A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI‎ : Rio de Janeiro : Casa da Palavra : 2008, pp. 72 e ss.

Sobre a entrada do Marquês de Marialva em Viena, a 17 de Fevereiro de 1817, cf. «Gazeta do Rio de Janeiro», nº 45, de 4 de Junho de 1817

quarta-feira, 4 de março de 2009

1º Visconde de Pindela (1824-1891)


João Machado Pinheiro Correia de Melo (n. Guimarães 08.01.1824, f. 09.05.1891), 1º visconde de Pindela
12.º e último administrador dos morgadios de Pindela, 6.º dos Guerras em Guimarães e senhor do prazo do mosteiro de Santa Maria de Arnoso

Do Conselho de S.M.F., Fidalgo-Cavaleiro da Casa Real, Governador Civil de Viana do Castelo – de 07.12.1869 a 06.06.1870, e de Braga por três vezes, a primeira das quais de 1866 a 1868, e, Deputado às Cortes em várias legislaturas, escritor e publicista. Sócio correspondente do Instituto de Coimbra e Sócio honorário do Grémio Literário Português, do Rio de Janeiro.
Casou duas vezes, a 1ª em Guimarães, a 17.01.1839, com D. Maria do Carmo Cardoso de Menezes Barreto do Amaral (1823- 1851) e a 2ª, em Guimarães, a 19.01.1853 com D. Eulália Estelita de Freitas Rangel de Quadros (n. 26.10.1827 - f. 19.01.1920), filha de um opulento negociante. De ambos os casamentos houve descendência.
Na sequência da revolta da Maria da Fonte que culminou na queda de Costa Cabral, na nomeação do governo de transição presidido pelo Duque de Palmela seguido pelo governo de inspiração cartista, do Duque de Saldanha, em Outubro de 1846, eclodiu uma revolta no Porto que conduziu à constituição da Junta Governativa do Porto, presidida pelo conde das Antas e que deu lugar a uma guerra civil conhecida como guerra da Patuleia.
Os miguelistas aproveitaram para desencadearam um movimento visando a restauração no trono de D. Miguel, designadamente, sob o comando do general MacDonell. João Machado Pinheiro adere a este movimento chegando a ser nomeado tenente dos Voluntários Realistas sob o comando de seu tio o 2º visconde de Azenha, prócere patuleia. A aventura patuleia levá-lo-ia porém a um curto exílio em Londres[1].
Com o começo da Regeneração em 1851, com o governo do Marechal Saldanha, João Machado Pinheiro adere ao Partido Regenerador o que lhe valeu a nomeação para Presidente da Câmara Municipal de Guimarães de 1852-53 e de novo em 1858-59 e 1860-62. Em 1860-61 é eleito deputado pelo círculo de Guimarães tendo sido reeleito em 1865
[2].
O título de visconde de Pindela foi-lhe concedido por
decreto de 31-01-1854 de D. Pedro V.
Em 1871, o visconde de Pindela rompe com o Partido Regenerador aderindo em 1876 ao Partido Progressista de Anselmo Braamcamp, sendo nomeado Presidente da Câmara Municipal de Braga em 1876-1879 e Governador Civil, de 05.06.1879 a 23.03.1881 e de 08.10.1886 a 20.12.1888.
Era Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1866), Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica, de Espanha (1872)
[3] e Medalha de Prata de Distinção e Prémio concedido ao Mérito, Filantropia e Generosidade (vulgarmente conhecida por Medalha de D. Maria II).

Esta última condecoração foi-lhe atribuída pelo Decreto 13 Outubro 1868 pelos serviços prestados por ocasião do incêndio ocorrido em 22.6.1868 no edifício da padaria militar na cidade de Braga.

« Decreto de 13 Outubro 1868, D.L. 292 / 1868 Visconde de Pindella, Conselheiro
João Machado Pinheiro Correia de Mello, antigo Deputado da nação portuguesa
Gabriel José, Soldado Porta-Machado, nº 44 da 1ª Comp. do Rgt. Infª nº 8 Joaquim
de Basto, Soldado Porta-Machado, nº 32 da 2ª Comp. do Rgt. Infª nº 8 Manuel
Funtão, Soldado Porta-Machado, nº 53 da 8ª Comp. do Rgt. Infª nº 8 Pelos bons
serviços que prestaram por ocasião do incêndio ocorrido no dia 22 de Junho de
1868, no edifício da Padaria militar estabelecida na cidade de Braga.» (cortesia
do nosso amigo e colaborador - Paulo Estrela).
No retrato acima veste farda de Conselheiro de Estado e ostenta a banda e placa de Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica, a placa e a medalha suspensa de fita, de comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e a Medalha de Prata de D. Maria II.


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[1] João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, ed. do Autor, 199, p. 93-94.
[2] Ibidem, pp. 97-99
[3] Autorizado a aceitar a condecoração por Despacho de 18 de Junho de 1875 («Diário de Governo», nº 142, 28 de Junho de 1875) informação gentilmente fornecida por Paulo Estrela, colaborador do «Phalerae».

Morgado de Pindela (1798-1865) - Cav. Torre e Espada

Vicente Machado de Melo Pinheiro Figueira (n. 2.07.1798 - f. 8.9.1865)
11º Morgado de Pindela, 7º senhor do Prazo de Arnoso, 5º Morgado dos Guerras em Guimarães

Filho de João Machado de Melo Pinheiro Figueira Lobo n. em Guimarães a 14.8.1757, 10º Administrador do Morgadio de Pindela, 4º do dos Guerras e 6º Padroeiro de Arnoso e de sua mulher D. Maria Angélica Pinto Falcão de Mesquita e Magalhães, f. em Guimarães a 1.5.1799.
Casou a 18.5.1823 com D. Carlota Carolina Corrêa de Moraes de Almada Machado e Castro (n. 1.07.1796 - f. 25.04.1861), filha do Marechal de Campo Graduado Martinho Correia de Morais e Castro, (1771-1833), 1º Visconde da Azenha, veterano da Guerra Peninsular.
Com efeito, em 1809, seu sogro era Major agregado do Regimento de Cavalaria nº 9 tendo sido nomeado pelo General Francisco da Silveira Pinto da Fonseca comandante de Cavalaria nas forças que reuniu em Chaves e participado na defesa de Amarante contra os Franceses, sob o comando do General Loison. Em 1813 era Tenente-Coronel - comandante do Regimento de Cavalaria nº 11, integrado na Brigada sob o comando do Marechal de Campo Thomas Bradford.
Em 1829, já Coronel foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Torre e Espada[1] e condecorado com a Cruz de Condecoração para Oficiais da Guerra Peninsular (2), de prata[2]. Em Julho de 1823, após a Abrilada era-lhe concedido o título de Visconde de Azenha a que acresceram as medalhas da Fidelidade ao Rei e à Pátria e da Heróica Fidelidade Transmontana. Como muitos dos seus contemporâneos[3], após a declaração de independência do Brasil por D. Pedro e a morte do rei D. João VI, o visconde de Azenha revelou-se partidário dos direitos do Infante D. Miguel, tendo participado nos levantamentos militares que se seguiram ao juramento da Carta Constitucional em 1826 e emigrado para Espanha até 1828, após a fuga das tropas do Marquês de Chaves e dos outros caudilhos miguelistas[4]. Promovido a Marechal de Campo do Exército Realista, em Janeiro de 1832, acabaria por ser destituído, por desavenças com D. Miguel I, e ser preso, um ano volvido, no Forte de S. Julião da Barra e na Torre de Belém, recuperando a liberdade após a partida para o exílio de D. Miguel I, em 1834[5].

Vicente Pinheiro era igualmente cunhado de Bernardo Correia Leite de Morais Almada e Castro, 2º Visconde e 1º conde da Azenha (n.30.10.1803 - f.21.12.1869), Coronel do Batalhão de Voluntários Realistas de Guimarães e de José António de Oliveira Leite de Barros, 1º conde de Basto, destacado apostólico, Ministro do Reino e da Marinha no governo nomeado por D. Miguel em 1828, tristemente célebre pela perseguição impiedosa que moveu aos liberais.
Em Junho de 1823, com 25 anos de idade, Vicente Melo Pinheiro Figueira foi destacado protagonista da reacção contra o Vintismo que grassou em Guimarães e um pouco por todo o país e que culminou na aclamação de D. João VI como rei absoluto. Em Maio de 1828, após a convocatória das Cortes por D. Miguel, Vicente Pinheiro disputa as eleições para dos procuradores do concelho de Guimarães, não tendo porém sido eleito. Com o desembarque das tropas liberais e a ocupação do Porto sob o comando de D. Pedro, duque de Bragança, criam-se os Batalhões de Voluntários Realistas e Vicente Pinheiro oferece-se de imediato como voluntário, sendo em breve nomeado Capitão do Batalhão de Voluntários Realistas de Guimarães. Participou no combate de Ponte de Ferreira, em 23 de Julho de 1832, e noutras acções contra a cidade do Porto em 29 de Setembro de 1832[6].
Por estas últimas, foi condecorado com o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, pelo Decreto de 26 de Outubro de 1832, por força da Carta Régia de 14 de Setembro de 1832 dirigida ao Tenente-General Visconde do Peso da Régua (cf. ANTT – MR - Livro 1123). Seu cunhado o Coronel Bernardo, futuro visconde de Azenha foi igualmente condecorado na mesma data
[7].

No retrato acima, Vicente Machado de Melo Pinheiro Figueira é representado com a farda de Capitão do Batalhão dos Voluntários Realistas de Guimarães, ostentando orgulhosamente no peito a insígnia de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, fundada em 1808, pelo Príncipe-Regente D. João, no Rio de Janeiro.
Tanto mais interessante, quanto o retrato terá sido verosimilmente pintado já depois de terminada a guerra civil com a derrota do partido realista, sendo rara a iconografia, desta época, com representações da ordem da Torre e Espada joanina. Cumpre relembrar que o Regente D. Pedro, duque de Bragança havia entretanto criado em 1832, uma ordem de mérito denominada - Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, com novas insígnias, a fim de galardoar os que combatiam pela Causa Liberal.

O Morgado de Pindela foi progenitor de João Machado Pinheiro Correia de Melo, 1º visconde de Pindela que trataremos de seguida.
_________
[1] cf. Paulo Estrela, Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa, Tribuna da História, 2009, p. 233.
[2] Ibidem, 245.
[3] Cf. Vasco Pulido Valente, Os Militares e a Política (1820-1856), Lisboa, IN-CM, 2005, pp. 23-31.
[4] João Afonso Machado, O Morgadio de Pindela, Porto, ed. do Autor, 199, p.86.
[5] Coronel António José Pereira da Costa (coord.), Os Generais do Exército Português, II volume, Tomo 1, Lisboa, Biblioteca do Exército, 2005, pp. 169-170.
[6] João Afonso Machado, ibidem, pp. 83-88.
[7] Agradeço a informação ao Paulo Estrela.

Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824

ORDENS E CONDECORAÇÕES PORTUGUESAS 1793-1824
Paulo Jorge Estrela
Tribuna da História, Lisboa (2009)



Aproveitando a existência deste blog especializado em Falerística, vamos publicar algumas actualizações a este ainda recentemente publicado livro.
Qualquer trabalho de investigação está sujeito a que novas “descobertas” venham complementar (e por vezes até contrariar) o até então apurado e, no caso, o que foi publicado.
Refira-se ainda, que esperamos, estes singelos dados sejam publicados na edição em inglês desta obra, que se encontra em preparação.


Assim, especialmente graças a investigação posterior efectuada no AHM (Arquivo Histórico-Militar), em Lisboa, é-nos possível acrescentar o seguinte:


Capítulo “Divisão de Voluntários Reais de el-Rei – Montevideu (1815-1823)”

Na Relação de agraciados com a Cruz de distinção da campanha de Montevideu 1822-23 (página 268) há a considerar mais um Oficial agraciado com o grau de Cruz de ouro:

D. Miguel Ximenes, Visconde de Pinheiro
[D. Miguel Ximenes Gomes Rodrigues Sandoval de Castro e Viegas]
AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixa 907

Não encontrámos a publicação oficial da concessão mas o teor de um Ofício de 1852, existente no seu processo individual (que comunica uma Resolução Régia), e que aqui transcrevemos, terá servido para implicitamente, legitimar a sua concessão.


Ofício do Comando em Chefe do Exército (1ª Repartição, 1ª Secção), de 1 de Março de 1852, assinado pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, Barão da Luz

«Comunica-se ao Comandante do Corpo de Estado-Maior do Exército que, Sua Majestade a Rainha, tomando em consideração os documentos comprovativos que lhe foram presentes e que evidenciam ter sido o Brigadeiro Visconde de Pinheiro despachado em 22 de Fevereiro de 1822, Alferes Ajudante de um dos Batalhões Cívicos organizados em Montevideu e promovido ao posto de Tenente do mesmo Corpo por distinção em combate e, atendendo a que os referidos batalhões fizeram parte da Divisão de Voluntários Reais de El-Rei enquanto se conservou na Banda Oriental, e a que o mencionado Brigadeiro acompanhou a Divisão no seu regresso a Portugal, prestando posteriormente relevantes e distintos serviços no Exército, pelos quais foi declarado Tenente do mesmo Exército, Houve por bem Resolver que conte o tempo de serviço desde do citado dia 22 de Fevereiro de 1822; e que de ordem de Sua Excelência o marechal Duque de Saldanha, Comandante em chefe do Exército, participo a Vossa Excelência para os devidos efeitos.
Deus guarde a Vossa Excelência
Quartel-general na Rua da Santo Ambrósio, no 1º de Março de 1852»

A gravura anexa é propriedade da Biblioteca Nacional de Portugal, na sua versão de imagem pública digital (http://purl.pt/1009).

A título de curiosidade refira-se que os citados relevantes e distintos serviços no Exército, foram, entre outras formas, distinguidos com a Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, criada em 1832.
Assim, durante a chamada Guerra Civil (1826-1834) e só no ano de 1833, foi agraciado com o grau de Cavaleiro (combates de 5 de Julho, nas Linhas do Porto) e com o grau de Oficial (combates de 18 de Agosto, também nas Linhas do Porto). Um ano depois, em 1834, foi condecorado com o grau de Comendador (acção de Torres Novas, em 25 de Janeiro de 1834 e batalha de Almoster, em 18 de Fevereiro de 1834).





Capítulo “Condecorações Britânicas concedidas a Portugueses 1808-1814)

Na Relação de agraciados com a Military General Service Medal (página 265) há a considerar mais um agraciado português com esta medalha britânica:

Victor Jorge


AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixas 198 / 284 / 322 / 353 / 418 / 466 / 528 / 554 / 665


Até 1813, este súbdito português serviu como Sargento na Cavalaria do Exército Britânico, mais concretamente no regimento 15th (The King’s) Hussars e com o nome de Victor George.
Depois de recomendado pelo Brigadeiro Hardinge ao Marechal Beresford (Comandante-em-chefe do Exército Português) ingressou no Exército Português em 31 de Agosto de 1813, como Alferes de Cavalaria e já com o seu verdadeiro nome: Victor Jorge.
Em meados do século XIX, chegou a Tenente-Coronel desta Arma, e em 26 de Outubro de 1849, com este mesmo posto passou à situação de Reformado, adido à Torre de S. Vicente de Belém.

Pelos seus serviços junto do Exércitos britânico, como sargento de cavalaria, requereu e foi agraciado com a britânica Military General Service Medal com duas passadeiras: Sahagun e Vittoria.

Esta sua concessão é confirmada pela respectiva publicação no livro de referência “The Military General Service Roll 1793-1814”, de A.L.T. Mullen (Londres, 1990)


A Military General Service Medal (com 3 passadeiras) que aqui apresentamos foi concedida a um soldado britânico.





Capítulo “Condecorações Britânicas concedidas a Portugueses 1808-1814)

Neste capítulo, há ainda uma referência especial a :

António Pedro Buys
AHM – Processos individuais de Oficiais, Caixa 401 [“processo do Buys, pai”]

Este Oficial de Artilharia fez a Campanha do Rossilhão como Praça e depois a Guerra de 1801, e participou ainda em algumas das campanhas da Guerra Peninsular mas não foi agraciado com qualquer das Cruzes de Condecoração então criadas por não preencher os rigorosos critérios de concessão. Mais tarde foi agraciado com o grau de Cavaleiro e depois ainda com o de Comendador da Real Ordem de S. Bento de Aviz, pela sua gradução e tempo de serviço sem reparo, como era habitual.

Em Requerimento de 1855 (arquivado no seu processo individual) passa a intitular-se detentor da Cruz Britânica pela Guerra Peninsular, e mesmo em Listas de Antiguidades de Oficiais de anos posteriores, aparece a mesma referência tipografada.
No entanto, não temos conhecimento de qualquer concessão de uma condecoração britânica a este Oficial (nem entendemos uma possível lógica de critério de concessão tendo em conta o seu serviço durante a Guerra Peninsular) assim como também não encontrámos nada no seu processo individual, pelo que, até referência em contrário, assumimos essa informação como um potencial erro...